"Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecoas da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo." [Clarice Lispector na crônica "A SURPRESA")
segunda-feira, 20 de janeiro de 2025
Eu existo. [Citação 018]
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
"Não olhem para as lágrimas [...], mas sim para o que as mãos dele estão fazendo!" [Citação 017]
"Existe uma história na qual se conta o seguinte: um ancião montou uma armadilha para passarinhos, mas eles acharam aquilo meio estranho. Assim que algum passarinha caía na arapuca, o ancião ia até lá para recolhê-lo, quebrando as asas do animal e jogando-o dentro do seu cesto. Porém, como fazia muito frio, os olhos do ancião lacrimejavam por causa das rajadas de vento que atingiam o seu rosto. Os passarinhos, então, se consultaram a respeito daquilo e disseram: "Não há perigo, pois esse é um velho bom e piedoso, cujas lágrimas escorrem com facilidade!". Mas um dos passarinhos gritou: "Não olhem para as lágrimas nos olhos do velho, mas sim para o que as mãos dele estão fazendo!"." (pág. 14).
sábado, 7 de setembro de 2024
Pelo visto, não aprenderam nada sobre guerra [Citação 016]
"Digam-me. Já mataram alguém antes? Já foram mortos por alguém? Já tiveram braços e pernas arrancados em uma explosão? Ouviram o som de ossos quebrando? Sentiram o cheiro de carne apodrecendo? Viram os destroços das casas esmagarem seus pais e irmãos bem na sua frente? E quanto a pedaços da pessoa amada grudados na parede? Já chegaram a morder cascas de árvore, de tanta fome? E carne humana? Alguma vez já chegaram a cozinhá-la? Já viram alguém próximo seguir desumanizando e matando o inimigo e uma vez de volta à vida civil, ficar transtornado chorar e vomitar de arrependimento e vergonha e acabar tirando a própria vida? Pelo visto, não aprenderam nada sobre "GUERRA" na faculdade, hein, garotos?" (Fala de Sylvia, Handler do Serviço Secreto de Inteligência de Westalis, personagem de Tatsuya Endo em Spy x Family, vol. 4.)
"Spy X Family" da Tatsuya Endo é aquele mangá leve e divertido que a gente lê gostando. Nele a gente encontra as aventuras de uma família com uma composição muitíssimo única. O pai, Loid, é um espião cuja profissão de disfarce é psiquiatra; a mãe, Yor, uma assassina profissional cuja profissão de disfarce é funcionária da pública; e a filha adotiva do casal, Anya, é uma criança paranormal que lê mentes, fruto de experiências com humanos.
Todo ambiente da história contada em "Spy X Family" remete ao mundo da Guerra Fria surgido após a II Guerra Mundial quando a extinta URSS e o EUA protagonizaram uma luta às vezes silenciosa, às vezes nem tanto, pelo topo do Mercado Econômico Mundial, o palco lembra um pouco Berlim dividida entre as potências, os personagens todos eles carregam traumas de uma guerra recente.
sábado, 20 de abril de 2024
Inclusive amor é a grande desilusão do que se pensava que era amor [ Citação 015]
"A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido conhecer um pouco mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor." (Clarice Lispector)
quinta-feira, 20 de julho de 2023
A História pertence a todos nós [Citação 014]
“A história pertence a todos nós. Sempre que você fala sobre algo que lhe aconteceu, seus amigos, sua comunidade ou seu país, você está relatando a história através de eventos que ocorreram no passado. A história pode cobrir a política, economia, estilos de vida, crenças, trabalhos de literatura ou arte, cidade ou áreas rurais, incidentes dos quais você se lembra, histórias que os mais velhos lhes contaram, ou temas sobre os quais você apenas pode ler. Falando amplamente, tudo que já aconteceu até o momento em que você lê estas linhas é história, ou o estudo do passado.” (In: GOLDSCHMIDT JR, Arthur; AL-MARASHI; tradução Caesar Souza. Uma história concisa do Oriente Médio. 1ª ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021.)
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Não há palavras [Citação 013]
"Não é verdade que há palavras para tudo. Também não é verdade que sempre se pensa em palavras. Até hoje há muitas coisas que não penso em palavras, não as encontrei, não no alemão do vilarejo, não no alemão citadino, não no romeno, não no alemão oriental ou ocidental. E em nenhum livro. Os meandros interiores não coincidem com a linguagem, eles nos levam a lugares onde as palavras não podem permanecer. Muitas vezes é o decisivo, sobre o que não se pode dizer mais nada, e o impulso de falar a respeito é bem-sucedido porque ele passa ao longe. A crença de que falar destrincha os emaranhados só conheço do ocidente. Falar não concerta nem a vida no milharal e nem aquela sobre o asfalto. Também só conheço do ocidente a crença de que não se pode suportar o que não tem sentido." (Herta Müller)
segunda-feira, 10 de abril de 2017
Ícaro [Citação 012]
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Ícaro do Recife. Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho na Praça 17 no centro do Recife. |
"Ícaro! Não é que tenha esquecido de todos os nomes. Lembro-me de Ícaro. Voou próximo demais do sol. Entretanto, nas histórias, valeu a pena. Sempre vale a pena tentar mesmo quando falhamos, mesmo que você entre em eterna queda livre como um meteoro. Melhor ter ardido na escuridão, ter inspirado outros, ter vivido, do que ter ficado sentado nas trevas, amaldiçoando aqueles que tomaram emprestado sua vela e não a devolveram." (Neil Gaiman, em "O homem que esqueceu Ray Bradbury" do livro "Alerta de Risco")
quarta-feira, 29 de julho de 2015
O que farei e o que não farei [Citação 011]
"Eu vou dizer-te o que farei e o que não farei. Não irei servir mais aqueles nos quais eu já não acredito, quer seja a minha casa, a minha pátria ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me nalguns modos de vida ou de arte tão livremente quanto possa e durante o tempo que puder, utilizando para minha defesa as únicas armas que me permito usar: - Silêncio, Exílio e Astúcia." (James Joyce - A Portrait of the Artist as a Young Man)
domingo, 26 de outubro de 2014
Quando eu te abraço não é mais seguro, mas é melhor [Coração 010]
Ele só queria.
Ele só queria alguém que se importasse com ele.
Alguém que lhe desse um abraço.
Alguém que lhe aquecesse.
Ninguém queria.
Quando eu te abraço no escuro, o escuro não vai embora.
Coisas ruins continuam a existir lá fora.
Os pesadelos ainda caminham.
Quando eu te abraço não é mais seguro, mas é melhor.
"Tudo bem", a gente sussurra.
"To aqui amor".
E mentimos: "Nunca vou te deixar".
Por apenas um instante o escuro não é assim tão ruim.
Quando te abraço.
(Neil Gaiman, Abraço, pg. 24 In: Dias da Meia-Noite, pg. 100)
sábado, 23 de agosto de 2014
Escreva [Citação 009]
(Professor Wistler, Claros Sinais de Loucura, p. 34, Karem Harrington)
Me identifico muito com ela, aos 12 anos também costumava procurar em mim sinais de loucura. Hoje procuro sinais de sanidade, mas continuo escrevendo diários, gostando de ler, de procurar palavras no dicionário e criar meus próprios sentidos para elas.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Irmãos [Citação 008]
"Irmãos são capazes de fazer aflorar a criança de 8 anos que vive em nós." (Julia Quinn, "Os segredos de Colin Bridgerton")
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terça-feira, 15 de julho de 2014
Sou voadora mesmo [Citação 007]
"Reconheço que não gosto da realidade, que jamais gostei. Acatei como pude quando já não havia mais jeito de esquivar-me de suas leis, mas o texto dessas leis - que além do mais, são tantos - não entra na minha cabeça. Mal o retenho com um alinhavo precário, e de uma hora para outra o esqueço. Vou de sobressalto, desfazendo os nós confusos que atrapalham a tarefa, e sempre fico em dúvida se os desfiz direito." (Carmen Martin Gaite, Nebulosidade Variável, p. 105)
sábado, 12 de julho de 2014
A Lua compreende o significado de ser humano [Citação 006]
"A Lua é uma companheira correta. Ela nunca se vai. Ela sempre está lá, observando, constante, reconhecendo-nos em nossos momentos de luz e escuridão, em constante transformação, assim como todos nós. Todos os dias uma versão diferente dela mesma. Às vezes fraca e livida, noutras forte e cheia de luz. A Lua compreende o significado de ser humano." [Tahereh Mafi_Estilhaça-me]
terça-feira, 11 de março de 2014
A família Fadiman acreditava no amor carnal [Citação 005]
"... da mesma forma como existe mais de uma maneira de se amar uma pessoa, há mais de uma maneira de se amar um livro. A camareira acreditava no amor cortês. O ser físico de um livro era sacrossanto para ela, sua forma inseparável do conteúdo; seu dever como amante era a adoração platônica, uma tentativa nobre, mas condenada ao fracasso, de conservar para sempre o estado de castidade perfeita no qual havia deixado a livraria. A família Fadiman acreditava no amor carnal. Para nós, as palavras de um livro eram sagradas, mas o papel, o tecido, o papelão, a cola, a linha e a tinta que as continham eram um mero receptáculo, e não significava nenhum sacrilégio tratá-los de qualquer forma, como ditassem o desejo e o pragmatismo. A rispidez no uso não era sinal de desrespeito, mas de intimidade." [Anne Fadiman, Ex-libris: confissões de uma leitora comum, pg. 44].
Confessem, vocês acharam que eu ia citar alguma coisa saída da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" ou dos Sullivans da Bella Andre! kkkk... Rá! Surpresa!!! Não foi... Essa vergonha alheia vocês não vão sofrer!!! Muito embora eu não me envergonhe nem um pouco de ter lido a trilogia da E. L. James e o "Quero ser seu" da Bella, são livros comuns.
Lembro da ocasião na qual comprei esse livro ano passado, passei por ele apressada, dei uma viradinha de cabeça e o vi lá numa banca na faculdade. Automaticamente ele gritou o meu nome e tive que o trazer para minha bagunçada estante. Nesse domingo ele voltou a me chamar e cá estou eu me identificando horrores com a autora desde a primeira linha. Estou amando ler todas as suas confissões sinceras e divertidas da Anne Fadimam. É muito fácil amar esse livro e sorri lendo cada uma de suas páginas.
terça-feira, 4 de março de 2014
Destino guarda bem seus segredos [Citação 004]
"Caminhe por qualquer trilha no jardim do Destino e você será instado a escolher. Não uma, mas muitas vezes.
As trilhas se bifurcam e se dividem. A cada passo você faz uma escolha, e toda escolha resulta em trilhas futuras.
No entanto, no fim de uma vida de caminhadas, você pode olhar para trás e ver apenas uma única trilha se estendendo ás suas costas; ou olhar para frente e ver apenas as trevas.
As vezes, você sonha com os caminhos de Destino e reflete sem propósito algum.
As tilhas divergem-se, ramificam-se e reconectam-se. Dizem que nem mesmo o próprio Destino realmente sabe aonde qualquer caminho há de levá-lo, para onde cada guindada ou mudança de direção apontará.
Porém, mesmo se Destino pudesse lhe dar a resposta, ele não o faria.
Destino guarda bem seus segredos.
O Jardim do Destino, você o reconheceria se pudesse vê-lo.
Afinal, há de perambular por ele até morrer.
Ou até muito depois.
Pois as trilhas são longas e, mesmo na morte, não se encerram."
[Neil Gaiman_ Estação das Brumas: um prólogo_The Sandman, Ed. Definitiva, vol. 2, p. 13]
Mas não deu! É muita coisa misturada, mitologia cristã, mitologia nórdica e algumas discussões existenciais sutis do tipo que gritam no seu ouvido coisas como: "PARE E PENSE!". Então, depois de ler "Estação das Brumas" eu cedi ao apelo e parei!
Daqui a uns seis meses volto a Sandman e descubro o que se reflete nos "Espelhos Distantes".
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Felicidade [Citação 003]
"Aquilo que em seu sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico. Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação tépida de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado. Dessa forma nossas possibilidade de felicidade já são limitadas pela nossa constituição. Muito menores são os obstáculos para experimentar a infelicidade. O sofrimento ameaça de três lados: a partir do próprio corpo (...); a partir do mundo externo (...) e, por fim, das relações com os outros seres humanos." [Sigmundo Freud. O mal-estar da cultura. pg. 63, 64].
Ah, a parte isso, sinto-me obrigada a confessar: esse exercício cansa a minha pouquíssima e já mui cansada beleza dos quase 30; tenho consciência de meu estado de desvantagem nesse exercício; e quando Freud citou "Cândido ou o Otimismo" de Voltaire eu "senti uma súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau" tipo "rá eu esse texto eu conheço velho prepotente!".
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Solidão [Citação 002]
"Toda criatura é só... Cada um de nós sofre, na solidão, o instante de sua morte; e é vaidade pensar que não existem, na vida, outros instantes assim. Mesmo o corpo da esposa, com quem dormimos, continua um corpo estranho; mesmo as crianças que engendramos nos são estranhas... Só há consolo na compaixão e em saber que os outros também sofrem do mesmo mal que nós." (Maurice Druon. A rainha estrangulada, vol. 2 da série "Os Reis Malditos", p. 56).
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Ygritte [Citação 001]
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Ilustrações feita por Elia Fernández, para conferir mais clicar aqui |
Eu queria ter mais coisas das duas em mim para vê se melhorava certos aspectos da minha vida. Aiaiai...
"Os deuses fizeram a terra para todos os homens partilharem. Mas aí os Reis chegaram com as suas coroas e espadas de aço e disseram que a terra era todas deles. "As árvores são minhas", disseram, "Não podem comer as maçãs". "O riacho é meu, não podem pescar aqui. A floresta é minha, não podem caçar. A minha terra, a minha água, o meu castelo, a minha filha, mantenham as mãos longe, senão eu as corto, mas se vocês se ajoelharem, deixo vocês cheirarem." Chamam-nos ladrões, mas ao menos um ladrão tem que ser corajoso, esperto e rápido. O tipo que ajoelha só tem que ajoelhar." (Ygritte_ Personagem do livro "A tormenta das espadas", George R. R. Martin, p. 424)
"... E se morremos, morremos. Todos os homens têm de morrer... Mas primeiro, vivemos." (Ygritte_ Personagem do livro "A tormenta das espadas", George R. R. Martin, p. 425)