quarta-feira, 20 de novembro de 2024

"Véspera" de Carla Madeira

Não fazia ideia da dimensão da Carla Madeira dentro do cenário da Literatura Brasileira atual até terminar de ler "Tudo é Rio" e ir atrás de mais informações sobre a autora e ficar ciente dos vários debates que sua obra acabou gerando virtualmente através das redes sociais e na realidade concreta através dos grupos de leitura Brasil a fora. Particularmente, gostei de "Tudo é Rio" e, como acho que "uma vez é nunca, uma vez é nada" peguei "Véspera" para ler e mergulhar ainda mais no universo narrativo dessa autora.

Em "Véspera" encontrei uma história que choca desde o princípio quando nos apresenta uma mãe que no auge do cansaço, do estresse e de um incomodo existencial tão latente que se torna físico simplesmente abandona seu filho na esquina de uma avenida movimentada. Claro, nossa protagonista, Vedina Maria, não é um monstro, no momento seguinte ela se arrepende e volta para buscar seu filho e nós, leitoras e leitores, somos convidadas e convidados a acompanhar tanto o que acontece depois desse momento de caos existencial de uma mãe exausta quanto todas as coisas que aconteceram antes.

Carla Madeira organiza seu livro indo para frente e para trás, é como se ela unisse dois livros em um só. Um livro conta a história do que acontece depois do ato extremo de Vedina e vai avançando do capítulo 1 até o 18, no outro, que começa do capítulo 18 e vai até o 1, ela conta tudo sobre o passado da protagonista à começar pela história de seus sogros, Custódia e Antunes e seus filhos gêmeos Caim e Abel. Nessa estrutura acompanhamos tanto o passado profundo que contém todo evento ocorrido no presente quanto a cadeia de eventos aflitivos que ocorrem imediatamente após envoltos em uma escrita fluida que avança e envolve sem entraves enquanto nos enternece, nos choca e nos faz pensar sobre as relações humanas dentro do seio das famílias.
"O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona." (pág. 227)

Tanto nessa obra quanto em "Tudo é Rio" a Carla Madeira trabalhou dentro da ideia de expor a sua audiência um fato chocantemente possível de acontecer com seres humanos em situações extremas e na sequência começa a fazer um tipo de arqueologia da violência. Ela vai escavando camada por camada do ser humano capaz de uma atitude violenta respondendo aquela pergunta clichê que sempre é feita a um agressor: "Por que você fez isso?".

"Véspera" é a irmã gêmea bivitelina de "Tudo é Rio", até o nome dos protagonistas das ações violentas combina. Vedina e Venâncio são irmãos gêmeos em suas ações catastroficamente humanas e o texto da autora busca contextualizar a pessoa leitora em relação ao fato de seres humanos não deixarem de ser humanos mesmo quando fazem coisas monstruosas. Em tudo é rio a metáfora da água permeia tudo, em "Véspera" é o tempo, as ações das pessoas no tempo vão pesando nos ombros delas até as conduzir ao infortúnio.

A sociedade é muito conivente com os homens quando se trata do perdão aos atos de violência e eu sou mulher, então, para mim, é muito mais fácil empatizar com a Vedina que, mesmo sendo a protagonista do ato de violência que abre a trama e nos impacta, é uma grande coadjuvante da própria história. Ela caí de paraquedas na trama complicadamente corriqueira da família de Abel e se torna o alvo da violência dele com o apoio da conivência de muita gente, a vida dela é tão triste, tão pobre em afetos e ternura me magoa, me fere, me faz ter vontade de ir lá abraça-la.

Falando da Vedina de Carla Madeira, acabei lembrando da Fanny Price de Jane Austen. Fanny é uma personagem coadjuvante na vida social de todas as pessoas com as quais convive, mas a autora através da sua narrativa perspicaz faz a história do livro girar em torno dela colocando em evidência o quanto Fanny é tão dona da própria vida que consegue ir contra tudo e todos para negar unir-se a um homem que ela percebe ser indigno e mal caráter com o qual ela sabe que será infeliz.

Vedina é a protagonista, mas a Carla Madeira conta a história dela colocando-a no lugar de coadjuvante da história da família de seu marido, de como Caim se relaciona com seu irmão Abel, da vida escolar de ambos, das frustrações, dos atos de amor e violência de ambos que nos são apresentado capítulo a capítulo. Até a história chegar nela nós conhecemos tudo sobre os pais de seu marido, a infância dele, seus amigos, até nos afeiçoamos aos personagens que fizeram o marido de Vedina ser quem é. Quando ela cresce e vem aparecer já não tem mais graça, é só o absurdamento de ver uma pessoa com várias possibilidades de vida se apequenar ao escolher se unir a uma pessoa descaradamente violenta desde o princípio.

Ler "Véspera" é um exercício muito fácil, o livro flui, o texto nos leva de uma forma muito tranquila. Digerir ele é bem mais difícil. Ainda estou no processo.

3 comentários:

  1. quero mutio ler, preciso colocar ela na minha lista. eu acho essa capa linda. beijos, pedrita

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  2. Carla Madeira está na minha lista para ler faz algum tempo, mas ainda não consegui entrar no clima. sempre que vejo as capas dos livros dela nas livrarias, fico impactada.
    achei interessante a estruturação do livro, certamente é outro atrativo me fazendo pensar que talvez eu deva parar de enrolar e dar essa chance pra essa escritora logo.
    beijinhos!

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