quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Uma professora compreensível, ou melhor, compreensiva


Outubro é o mês no qual se comemora o dia das professoras e dos professores e no espaço de Formação de Professores foi organizado uma pequena celebração. Não, não foi a Prefeitura de Jaboatão a nobre autora de tal ato, NÃO MESMO. Foram os professores formadores os responsáveis pela organização do evento e até a compra dos brindes. Foi em uma das dinâmicas organizadas que uma das minhas colegas decência me adjetivou com a palavra "compreensível" no sentido de eu "ser uma pessoa compreensiva, capaz de receber bem as pessoas na escola, ser legal".

No lugar onde trabalho não se tem a costume de festejar ou homenagear os docentes. Tão pouco tenho vivido em um ambiente acolhedor ou gentil. Ultimamente minha realidade é só de cobranças e mais cobranças em um ambiente de trabalho sucateado, superlotado, sujo e caótico. Já falei em outros momentos aqui de minhas agruras como docente, de meu estranhamento diante dos adolescentes com os quais passei a conviver desde 2017 e, de lá pra cá, as coisas não melhoraram em nada. Continuo sendo Alice indo enfrentar o Monstro Jaguadarte com a Espada Vorpal.

A escola pública brasileira como conheço é o "Mundo das Maravilhas" e o "Outro Lado do Espelho": fascinante, interessante, inquisitiva, perturbadora, cheia de perguntas para respostas prontas, cínica, atroz, perigosa. Tem Rainha Vermelha e seu Rei, Lagarta, Gato, Chapeleiro, Coelho Branco eternamente atrasado, um bosque no qual se você vacilar esquece até seu nome o que se dirá do conteúdo das aulas.

Quando chego na escola tenho a impressão de está viajando pela Toca do Coelho. Não raro, como Alice, fico rememorando os conteúdos, o plano de aula, os livros e sentindo o quanto todo esse conteúdo curricular é um recurso frágil demais, quase inútil, para enfrenta os problemas do Maravilhoso Mundo da Sala de aula lotada até o topo. Menos raro ainda é chegar e casa e ficar me perguntando se todo aquele tumulto, desafios e perigos foram mesmo reais. Geralmente quando duvido da realidade de minha prática profissional o despertador toca e aí se não viajo pela Toca do Coelho algum espelho me absorve e novamente somos todos loucos nesse mundo arriscado.

Eu amo minha profissão! Sou grata a Deus por ter esse emprego cujo salário me permite viver como vivo, comer o que como, vestir o que visto. Sendo professora sinto que cresço e diminuo muito ao longo do dia, do momento, da situação, seja fora ou dentro da escola. Essa profissão muitas vezes me deixa desnorteada e vejo tal qual Alice diante da Lagarta.


"Quem é você? perguntou a Lagarta.
[...]: Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas passei por várias mudanças desde então."
"Que quer dizer com isso? esbravejou a Lagarta."Explique-se!"
"Receio não poder me explicar", respondeu Alice, "porque não sou eu mesma, entende?"
"Não entendo", disse a Lagarta.
"Receio não poder ser mais clara", Alice respondeu com muita polidez, "pois eu mesma não consigo entender, para começar; e ser de tantos tamanhos diferentes num dia é muito perturbador."

Quando uma colega de trabalho adjetifica como compreensiva e explica generosamente o porquê me sinto emocionada, vejo um filme passando em minha cabeça e sinto gratidão por apesar de tudo isso ainda ser capaz de compreender as pessoas, ser receptiva com elas, rir com elas, tentar esboçar alguma forma de conforto dentro desse ambiente no qual trabalho.

E continuo acreditando em coisas impossíveis enquanto desfruto de ter sido considerada uma pessoa compreensiva. Talvez eu esteja entendendo a lição da Rainha Branca e tenha começado a dizer as pessoas que chegam:

"Oh, não fique assim!"... "Considere a menina grande que você é. Considere a longa distância que percorreu hoje. Considere que horas são. Considere qualquer coisa, mas não chore." (pág. 227)
"Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã..." (pág. 227/228)

Um comentário:

  1. que lindo o adjetivo q escolheram pra de definir. emocionante. parabéns pelo dia dos professores, tão fundamental pra todos nós. beijos, pedrita

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