sábado, 30 de abril de 2022

Mulher-Maravilha 49: Estado de Futuro, vol. 1

 
Quando soube que uma "Mulher-Maravilha" indígena estava sendo preparada para chegar ao mundo dos HQs vibrei muito, quando o nome da Joëlle Jones foi anunciado na arte e no roteiro vibrei mais ainda. Colecionado a "Mulher-Maravilha" desde 2013, acompanho o trabalho da Joëlle em "Mulher-Gato" e "Lady Killer", gosto bastante de ambas, tinha elementos suficientes para ser arco positivamente memorável da heroína mais incrível de todas e, consequentemente, minha decepção foi astronômica.

No Brasil, encontramos a primeira aparição da Mulher-Maravilha indígena, natural da Amazônia, Yara Flor, no "Mulher Maravilha  49: Estado de Futuro - Parte 1 de 2". Logo na primeira páginas encontramos ela imersa dentro do coração da Floresta Amazônica e somos introduzidas a história por um monologo da personagem enquanto ela assassina uma Hidra.
"As vezes, no decorrer da história a pessoa certa nasce na época certa. Mas estou me precipitando, me deixe começar a história pelo começo. Mas já vou avisando que ela não termina no fim. Há muito, muito tempo, e em lados opostos do globo, Zeus e Tupã, deuses do trovão, se sentaram em seus respectivos tronos. Não sei dizer como isso aconteceu ou o que veio antes disso. Eu não estava lá. Poxa que anticlimático. Até onde eu sei, vocês também não estavam."
Não sei, porém suspeito, esse monologo inicial tinha a intensão de justificar uma amazona na América do Sul, criar mistério sobre a origem da personagem e sua ligação com o Olimpo Europeu, assim como um mote para futuros/futuras roteiristas, apresentar a personagem como uma mulher empoderada e jocosa e ser engraçado ao mesmo tempo. Até certo ponto funcionou, mas começou daí meus arrepios literários.

A Joëlle é uma roteirista e desenhista muito dinâmica. Amo a arte dela, a forma como ela desenha o corpo feminino, cria cenários com luz e sombras. Acho o trabalho de roteirização dela bem bom, dinâmico, ágil, colocando em evidência no dialogo de texto e imagem mulheres em situações de ação, demonstrando inteligência, sagacidade e força para resolver seus problemas. Se fosse uma história de qualquer mulher branca seria uma HQ perfeita em arte e roteiro. Leitura rápida, leve, divertida, inteligente. O grande problema dessa história é o fato da Yara Flor não ser uma mulher branca.


A Yara Flore é uma mulher indígena capaz de navegar o interior da floresta amazônica e por mais que em sua vida ela possa ter dialogado com a cultura grega de forma mística, ela deveria ter algum traço cultural indígena além da estética e ela não tem nenhum. Em suas ações e falas ela não demostra nenhum respeito pela floresta e sua fauna e flora. É absurda e totalmente equivocada a forma como ela dialoga com a Caipora, ser encantado protetor dos animais da floresta. Os povos indígenas naturais da Amazônia e de outros espaços do Brasil são muito claros ao assumir um papel de guardiões da floresta, protetores de sua diversidade ecológica, ai na primeira história da Mulher-Maravilha indígena ela me aparece matando uma Hidra no meio da floresta para demonstrar força.

E como se não fosse suficiente começar assim, a Jöelle retrata um conflito entre a Caipora e a Yara no qual a heroína é totalmente desrespeitosa. Gente, os povos indígenas não dialogam com suas divindades da mesma forma que os gregos e mesmo assim ainda não peguei uma HQ da Mulher-Maravilha onde a Diana fosse tão desrespeitosa com as divindades femininas do Olimpo. Até a estética da Caipora parece mais um Cúpido que um personagem das nascido dentro da floresta tropical da mente e espiritualidades das populações nativas da região. É uma heresia tremenda um encantado da floresta associar fumo a vício quando a fumaça nas religiões de matriz afro-indígena é um portal entre o mundo físico e o mundo espiritual, um fator facilitador do caminho do milagre.


Além dos desrespeitos e desconhecimentos em relação a teologia/mitologia dos povos originários da América do Sul ainda há a forma como a Yara mostra seu heroísmo. Na história ela mata a Hidra para ir até o Hades atrás da alma de uma amiga. Sinceramente? Tantos conflitos contemporâneos acontecendo dentro da Floresta Amazônica, garimpeiros ilegais, trafico, exploração sexual de crianças indígenas, desmatamento causado por madeireiras e a Jöelle me vem com um clichê desses... Ela ainda podia relacionar a morte da companheira de combate da Mulher-Maravilha com a realidade da floresta, mas nem isso. Essa primeira aventura foi uma completa decepção

Como essa revista faz parte de um arco narrativo da DC Comic chamado Estado de Futuro, com histórias localizadas em diversos lugares diferentes do Futuro que vão desde o ano de 2025 d. C. até 80.000 anos d. C. e além, também encontramos uma história da Núbia, "Mulher-Maravilha da Ilha Flutuante", ela surgiu em janeiro de 1973 criada por Robert Kanigher e Don Heck, estreando na edição Wonder Woman (vol. 1) # 204, sendo a primeira heroína negra da DC. Também filha da Rainha Hipólita, de Themyscira (antigamente, Ilha do Paraíso) e irmã da Mulher-Maravilha. 


A história apresentada aqui é roteirizada por Leatrice "Elle" McKinney (L. L. McKinney) e a arte foi por conta de Alitha Martinez. Nessa história a quantidade de erro foi zero. Amei, melhor história do volume. Lembra um pouco o enredo do filme de Constantine, só que em vez de um homem magico navegando por uma cidade onde criaturas biblicas se disfarçam entre humanos, temos uma mulher magica navegando pela cidade onde criaturas mitológicas originadas no Mundo Antigo se misturam aos seres humanos. Fiquei muito curiosa para ler mais sobre o universo de Nubia.


Há também uma história da Mulher-Maravilha tradicional em algum lugar em um futuro distópico no qual o Batman não mais vive e a Diana precisa ajudar continuar a proteger a humanidade com a ajuda das suas irmãs amazonas, do Superman já idoso e do Monstro do Pântano. A melhor coisa dessa história para mim foi a arte lindíssima de Jen Bartel, me encantou, encheu os olhos, mas o roteiro não é ruim, é o inicio de uma aventura que desejo acompanhar.

Infelizmente, a história mais decepcionante foi a da Yara Flor. A Jöelle é uma roteirista ótima, mas não conhece o suficiente a história dos povos indígenas da América do Sul e o maior problema da história contada por ela é esse desconhecimento gritante. Sinceramente, ter escalado uma roteirista de origem indigena teria feito toda a diferente na execução dessa história, na construção desse personagem. Espero que em próximos volumes a DC perceba a necessidade de deixar que as pessoas não brancas participem da concepção e elaboração das histórias de seus personagens não brancos assim como acontece na Marvel.


4 comentários:

  1. ah, nao sabia, fiquei curiosa. ainda há muita lenda sobre povos indígenas, nem sempre acertam mesmo. beijos, pedrita

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  2. Jaci vc deu todos os motivos cabíveis para não ler e eu fiquei foi muito interessada kkkkkk. Mas é isso, Marvel é distração, entretenimento. Se algo americano questionasse algum aspecto da ordem mundial eu ficaria pasma. Acho que para que a diana indigena fosse fiel tinha que ter uma brasileira na produção, aliás uma artista indígena. O povo sabe pouco daqui.

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  3. Oi, Jaci!
    Não conheço os trabalhos dessa roteirista, mas a profissão pede muita pesquisa. Fiquei curiosa quanto à isso e descobri que ela foi ajudada pela quadrinista Bilquis Evely que é brasileira. Pelo jeito, ser brasileira não quer dizer que sabe de Brasil.
    Beijus,

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    1. É que o Brasil é uma país tão grande que ela precisaria ser auxiliada por uma pessoa indígena para acertar. A Joele é uma ótima roteirista, mas fez escolhas muito equivocadas nessa HQ, foi uma decepção sabe!

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