quarta-feira, 26 de julho de 2017

Nos trilhos do metro, Samuel Beckett e muita fragilidade...


Mudei de emprego. Para minha alegria e angustia precisei deixar a Educação Infantil (espero que apenas momentaneamente) e abraçar com os dois braços e exclusividade o Ensino de História. Agora trabalho em outra cidade e tenho uma vida na qual os trilhos do metro existem.

O metro é mundo a parte. Ainda me sinto meio deslocada, fora de prumo, pobre em estratégias para ir e vim. Aos pouco vou me tornando mais uma entre os muitos habitantes do Mundo do Metro enquanto pouco a pouco vou conhecendo os velhos moradores.

Hoje encontrei no metro um homem que distribuía "Boa Noite!" e pedia uns trocados. O relógio marcava 12 horas e 45 minutos e todo o sol do Recife estava invadindo o vagão de ponta a ponta. Era, inclusive, o mesmo homem que ontem as 7 sete da noite me deu "Boa Noite!" e me pediu uns trocados. Ele parecia caminhar fora do tempo e do espaço, preso na noite em plena luz do dia. Um pé na vida o outro fora dela. Frágil de um jeito que comoveria a própria fragilidade. E eu ali sem ação, sem chão, parada e correndo pelos trilhos, atordoada impotente.

De alguma forma ele me lembrou o Malone de Samuel Beckett. Um homem arruinado, doente, a beira da morte que escreve um relato longo, desconexo, cheio de histórias confusas sobre a sua vida. Ler "Malone Morre" não foi uma leitura muito fácil, tem quase um ano e ainda estou em processo de digestão. Nem via luteratura é fácil conviver e mergulhar nas fragilidades humanas. Como as pessoas cuja consciência da realidade está fragilizada, por vezes o texto de Samuel Beckett as vezes não parece fazer sentido, mas faz, de perto faz.


"Um mínimo de memória é indispensável, para viver de verdade."
(Samuel Beckett)

"Mas conheço a sombra, ela se acumula, se torna mais densa, depois de repente explode e afoga tudo."
(Samuel Beckett)

"E talvez seja agora que ele veja o céu do velho sonho, os cruzeiros e a terra também, e os espasmos das ondas em que nenhuma se mexe sem que todas as outras se mexam outro tanto, e o movimento tão diferente dos homens, por exemplo, que não estão ligados uns aos outros mas livres para ir e vir, cada um do seu jeito. E eles não se fazem de rogados e vão e vêm, no estrépito de matraca dos cliques de suas grandes articulações, cada um do seu lado. E quando um morre os outros continuam, como se não fosse nada."
(Samuel Beckett)

"Decididamente nunca me será dado terminar nada, fora respirar. Não é preciso ser guloso. Mas não é assim que se sufoca?"
(Samuel Beckett)

6 comentários:

  1. Desejo muita sorte nesse novo emprego e pelos trilhos que, com tua capacidade de VER, trará lindas inspirações. Belos trechos trouxeste! bjs, chica,tuuuuuuudo de bom!

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  2. nossa, grande mudança. não só de área mas com distância. corajosa. essa crise anda insuportável. eu moro perto do metrô e uso um pouco. leio sempre. prefiro livros em papel pq é muito alto o roubo de eletrônicos no metrô e pq gosto mais em papel mesmo. eu sempre penso em levar livros menores, mais fáceis de carregar, mas o livro que sempre quero ler é o q estou lendo não importa o tamanho. então volte e meia carrego peso. sucesso na nova empreitada. beijos, pedrita

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  3. Oi, Pandora, tudo bem?
    Você e suas postagens sempre maravilhosas :)
    Fui lendo sua postagem e foi como se eu visse o senhor. Não por já tê-lo visto. Mas por já ter visto tantos na situação. E o pior, é que eles são invisíveis para a sociedade. E eu me incluo nisso também. Mas é exatamente isso, a gente passa a vida correndo, que não repara no senhor que dá boa noite, mas quando repara, também não sabe o que fazer.
    Beijooos
    http://www.profissaoescritor.com.br/

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  4. No andar dessa carruagem que chamamos de metrô, continue observando as pessoas e postando aqui as histórias delas.
    Amei a postagem!

    BJK
    JAN

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  5. Preparar o coração para conhecer a Jaci que se moldara nestes trilhos e nestas novas experiências... mais uma borboleta saindo do casulo... sucesso amiga... estou aqui vibrando a cada dia contigo... 😚

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  6. Oi! Mudança nem sempre é fácil, mas aprendemos com ela. Desejo sucesso no novo emprego e que te traga experiências maravilhosas. E claro, mas textos reflexivos como esse. Bjos ❤

    Click Literário

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