terça-feira, 11 de setembro de 2012

Assim também ofende néh!!!

Nos últimos tempos a leitura de textos voltados para a História e a escrita tem consumido grande parte de meus dias. De forma que tem sido muito mais frequente na rotina desse blog que eu fale de livros ou comece uma reflexão a partir de uma leitura de algum livro.

E bem, hoje isso vai se repetir um pouco... Perdão pela repetição!

Mas, como minha pesquisa de mestrado diz respeito as ultimas décadas do Império do Brasil fui obrigada a me deparar com o livro "O pântano e o riacho" de Raimundo Arrais. O livro é resultado da pesquisa de doutoramento dele feita na USP e tenta tratar das transformações pelas quais passou o espaço urbano do Recife ao longo do século XIX.

Para tanto, ele invoca textos clássicos sobre a cidade durante o século XIX. Ele analisa textos produzidos durante a primeira métade o século XX por Pereira da Costa, Mario Sette e Gilberto Freyre, entre outros. Aliás a melhor parte do livro  é quando ele fala sobre os autores e a forma como eles desenharam a cidade do Recife em seus discursos.

Enfim, no final do livro ele vai falando o que não deu certo para a cidade, o que foi sonhado e não concretizado e fala sobre os subúrbios da cidade. É certo que no inicio do século XIX há um certo romantismo na visão que os intelectuais tinham do subúrbio. Carlos Pena Filho, na primeira metade do século XX, falou assim dos subúrbios da cidade:

"Nos subúrbios coloridos
em que a cidade se estende,
em seus longos arredores,
onde, a cada instante nasce
uma rosa de papel,
caminham as tecelãs.
Restos de amor nos cabelos
que ocultam por ocultar,
levam a noite no ventre
e a madrugada no olhar..."

Quase cinquenta anos depois muitas águas rolaram debaixo das pontes da velha cidade do Recife, houve os milhares de retirantes vindos dos diversos estados do Nordeste para cá, houve a expulsão da população do centro para o subúrbio, pseudos-revoluções, ditadura, resseção, crise, caos... Enquanto as áreas que pertenciam a velhos engenhos foram sendo lentamente ocupadas e a cidade foi crescendo meio loucamente.

Se eu fosse descrever Recife eu roubaria as palavras de Terry Pratchett usadas para descrever Ankh-Morpork em "A Magia de Holy Wood":

"Os poetas a muito desistiram de tentar descrever a cidade. Os mais espertos disfarçam. Dizem que... bem... talvez ela seja malcheirosa, talvez ela seja superpovoada, talvez ela seja um pouco como o Inferno seria se controlassem o fogo que queima por lá e formassem um curral cheio de vacas com problemas intestinais durante um ano. Mas é preciso admitir que ela é cheia de vida pura, dinâmica e vibrante. E é verdade, apesar de serem os poetas quem dizem isso. E as pessoas que não são poetas dizem: e daí? Os colchões também tendem a ser cheios de vida, mais ninguém escreve odes a eles. Os cidadãos odeiam morar lá e, se são obrigados a mudar para outra cidade por causa do trabalho, por aventura ou, o que é mais comum, para esperar que algum astatuto de limitações expire, não vem a hora de voltar para que possam sentir um pouco mais do prazer de odiar viver lá. Eles colocam adesivos na parte de trás da carroça dizendo: "Ankh-Morpork - Odeia-a ou deixe-a"...
(...) Ela sobreviveu a enchentes, incêndios, multidões, revoluções e dragões."
(Terry Pratchett, A magia de Holy Wood, p. 12-13)

A cidade de Recife inteira é complicada, louca, maravilhosamente viva e cheia de problemas. Meu bairro é cheio de problemas, se eu os fosse listar eu precisaria de um novo blog só para isso. A parte isso, destaco uma parte do texto de "O pântano e o Riacho" no qual Raimundo Arrais fala das áreas elevadas do Recife:

"Ali, o que era o romantismo de subúrbio virou desumanidade e medo. Na visão noturna de quem entra no Recife, são aquelas luzes mínimas cintilando no fio frágil das formas subindo e descendo os morros descalvados da primitiva mata. Na visão diurna, impõe-se o anti-cartão postal dos panoramas da Grande Recife: a imagem da iminência das tragédias coletivas nos véus negros das lonas distribuídas pelo governo para cobrir os trechos das ribanceiras e impedir que, fustigados pela chuva, desçam rolando, no esbarrancamento desse aglomerado indistinto de paredes, alicerces, telhas e tralhas domésticas."
(ARRAIS, Raimundo, O pântano e o riacho: a formação do espaço publico no Recife do século XIX, pg. 516, 517)

Caraca meu irmão!!! Quantas expressões pejorativas em uma única descrição: desumanidade, medo, anti-cartão postal, tragédias coletivas... Ele chamou meus livros de tralha ou é impressão minha?!?!

Tá, eu não sou Gabriela, mas vou usar uma fala dela: "Gostei não!" e em minhas próprias palavras: "Assim ofende!".

Nós somos pessoas certo! Somos humanidade e não desumanidade. Todas as pessoas do mundo vivem a iminência da tragédia coletiva. Medo? Falta de segurança é um problema da cidade inteira e não apenas dos suburbios da cidade, todo mundo vive com medo nos dias de hoje. Sinceramente eu me sinto muito mais segura quando o ônibus dobra a Avenida Norte e eu me vejo no meu bairro, respiro, estou em casa. E definitivamente tralha é uma palavra ofensiva para designar os bens adquiridos através de uma vida de trabalho duro e constante.

Me deu tanta raiva ler essa passagem do livro que não pude evitar vim aqui e escrever! Não é que o suburbio seja o paraíso na terra, não é! Muita coisa precisa ser mudada por aqui, há o descaso do poder público, há esgotos a céu aberto, tem lugares nos quais chega a conta de água e não chega água, os problemas urbanidade são muitos mesmoooo com todos os "oos" do mundo.

Mas não consigo deixa de pensar que nessa passagem o Raimundo Arraes pareceu o Caco Antibes dando uma de poeta e não posso deixa de exclamar: "Qualé cara! Isso é bullying sábia?".


27 comentários:

  1. kkkkkk, ofende sim! Como você pode ver escrever é difícil, num único paragráfo o cara se entregou em todo seu preconceito!
    Anti- cartão postal é forte!
    bjs
    Jussara

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    1. Oooh se é!!! Escrever é um desafio Jussara!!!

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  2. é meio estranho mesmo ver a opinião dos outros sobre nossa cidade. Mas o que me chamou atenção foi quando vc falou que aí em recife os pobres foram empurrados para o subúrbio. Aqui teve algo parecido na reforma pereira passos que foi na década de 20.

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    1. Pois é Aleska, isso foi uma politica nacional, higienizar as cidades, alargar as ruas, modernizar. As consequências disso são muitas!

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  3. Ah, esses intelectuais. Também acho que ele pegou pesado, como se olhasse tudo com carinha de nojo e medo de sujar o bico do sapato engraxado. Fala sério. Concordo quando se diz que todo mundo vive com medo hoje em dia, e eu também me sinto muito mais seguro em meu bairro que fora dele, e olha que moro em cohab.

    Grande abraço ;)

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    1. Pois é Luciano, eu não sei sobre a personalidade do autor, mas tive esse momento de raiva e precisei me expressar!

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  4. Kkkkkk cara insensível! Fiquei ofendida também, sou apaixonada por Recife, principalmente a parte antiga da cidade...

    Jaci, já chamaram os meus trabalhos de tralhas "Dona as suas tralhas são muito bonitas!", foi um Senhor/passante, como me ofender? Se notei que seu vocabulário era limitado e ele estava elogiando. O que não é o caso do autor acima citado.

    Bella, demorei mas postei! Tem Pandora na Jubiart...

    Beijãoooooooo

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  5. Pandora, não deixe que a ira tome conta de sua vida e a faça perder a cabeça e a razão. Que tipo de mestre tu desejas ser? Quando não sabemos dosar emoção com razão dá nisso... Trechos sem nexo a assassinar a última flor do Lácio. Wagner

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    1. Wagner sinceramente se existe um lugar no qual eu posso perder a cabeça tanto quanto eu quiser esse lugar é esse blog. Eu desejo ser um tipo de professora que expressa sua opinião francamente.

      Assumo que não sou uma escritora primorosa, muito pelo contrário, vez ou outra, ou vez em sempre, cometo deslises no português e se você acha isso tão intolerável existem duas opções possíveis:
      1. Você pode identificar o erro e corrigir tanto publicamente quanto por e-mail, eu aceito correções educadas;

      2. Você pode simplesmente clicar no "x" que existe lá em cima da tela e não nem uma linha do que escrevo. Se a forma como escrevo te desagrada, lembre-se: "A porta da rua é serventia da casa."

      Pandora

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    2. Exatamente Pandora, aqui vc pode o que quiser. =D

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    3. É Wagner você vacilou. Não é porque uma pessoa domina o português que o que ela escreve tem qualidade. A Pandora conquistou um público grande como você pode perceber pela quantidade de seguidores, e ganhou duas vezes um concurso literário. Isso não é por acaso, é porque ela tem talento.

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  6. Pan,
    não quero fazer polêmica em seu blog, mas... não entendi o que o Wagner quis dizer e ao que me parece ele não leu seu post. Nós duas, que lemos muito sobre o século XIX e começo do século XX, sabemos que os textos são eivados de preconceito. Acho super válido lembrarmos disso, vivo fazendo isso no meu blog, nem por isso os textos são invalidos, no mínimo podemos ver o grau de preconeito da época. Seu texto está muito bem escrito, distingue o texto da realidade atual e contextualiza para sua realidade, é esse olhar e sensiblidade que fará de você uma professora melhor. Parabéns!
    bjs
    Jussara

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    1. Jussara eu só posso te agradecer pelas palavras!!! Obrigada mesmo!!!

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  7. Solidariedades de uma suburbana carioca! É bem assim mesmo... Um colega do meu trabalho vai ter que ir ao subúrbio onde nasci e vivi 30 anos. Ele não para de se lamentar, parece até que vai pro Afeganistão.

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  8. Poxa, Pandora, que aula hein? Gostei muito!
    Olha, sobre o trecho do livro, eu não saberia opinar, porque é apenas um trecho, está descontextualizado, portanto, eu não tenho como formar uma opinião sobre se houve intensão de ofender a cidade do Recife. Eu até acho que ele se referiu ao descaso das autoridades com os problemas sociais e de infraestrutura. Bom, não sei, é só uma possibilidade de interpretação de uma passagem destacada.
    Tralhas... É um termo forte, ruim de se ouvir quando fala das nossas coisas.


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    1. Eu também acho que ele não teve a intensão até porque é recifense Ligéia, o livro inteiro não é ruim, tem coisas boas no livro. Eu sei que escrever não é fácil, como disse a Jussara, mas eu simplesmente estressei com esse trecho final!!! Fiquei entalada ai tive que desabafar o entalo aqui rsrs

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    2. Ah, então, se ele é recifense, acredito que esse trecho represente uma revolta, uma crítica aos responsáveis por essa mudança no cenário da cidade, mas como não conheço o texto todo, nem o autor, posso estar bem enganada quanto a isso.
      Eu te entendo, Pandora. Também fico p da vida quando falam mal de São Paulo, principalmente se não for daqui. Se aqui não é bom, não venha, e se não está bom aqui, vai embora, o Brasil é muito grande. Até já postei isso no meu outro blog, quem sabe até poste de novo neste outro.
      A gente sabe como é quando falam mal da terra da gente(uma pessoa me disse que eu,ao falar "minha terra", demonstra o quanto eu sou POSSESSIVA, acredita?).

      Se a gente for ver, praticamente o Brasil todo é ruim nesse sentido, problemas sociais e infraestruturais não é "privilégio" só nosso. ;)




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  9. Também detesto quando falam mal do Rio. Existem formas e formas de se fazer uma crítica. Indelicadeza com os moradores da cidade ou do país eu não aceito.
    Beijo, Nadia

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    1. tb acho isso. por isso que odeio o livro 1808 que fala mal do Rio. ainda por cima pq foi escrito por um jornalista marrom de SP falando de Historia. um grande fiasco.

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    2. Concordo Nadia, existem formas e formas de se criticar... E Aleska, historiador adora alfinetar jornalista néh?!?! Eu ainda não li 1808 então nem posso comentar, mas tenho vontade de ler. E sim, uma coisa os jornalistas tem de bom, ele conseguem escrever textos acessíveis a qualquer pessoa que deseje ler, nós deveríamos aprender a fazer isso.

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  10. Bom, algumas pessoas só enxergam o que não presta nas cidades! E concordo plenamente com vc Jaci, a insegurança existe em qualquer lugar! Eu moro no centro de SP, um local, considerado por muitos, perigoso, mas nunca fui assaltada por aqui, mas já fui assaltada no Higienópolis, bairro da elite!

    Bjs

    Pers/Mi

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    1. Pois é, a insegurança e os problemas de urbanidade não são privilégios de uma só parte da cidade, estão em todos os lugares!

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  11. Anti-cartão postal, tragédias coletivas, desumanidade (???), tralha (!!!)... Caraca! Nunca li tantos adjetivos pejorativos em um só post.
    Conversamos bastante a respeito disto, do lugar onde mora, das dificuldades e vantagens, contanto, eu penso que um autor só deva opinar algo quando se está por dentro da história. E estar por dentro não é tirar conclusões precipitadas ou basear-se em teorias mais do que clichês (porque sejamos sinceros, isto é típico clichê de pessoas elitistas a respeito dos subúrbios) e sim, conviver ao menos um tempo com o povo, ver como pensam, vivem, para escrever uma literatura REALISTA.
    Nada como o convívio para desbitolar mitos.
    Livro tosco, não faria a mínima questão de ler se não fosse por obrigação.
    E compreendo que tenha se sentido ofendida, qualquer pessoa se ofende quando falam de suas origens, principalmente de forma negativa e com o agravante da falta de embasamento para tal.
    E a respeito do medo, todos nós, seja em que parte do país que for, estamos sujeitos a isto.
    Compreendo perfeitamente sua indignação.

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    1. Christian, eu confesso que o livro não é tosco, a parte essa pérola ele tem seu mérito, foi fruto de 4 anos de pesquisa, mas não existe um bom sem falhas e um ruim se mérito néh?!?!

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  12. Jaci, recebi um daqueles selinhos/desafios e obviamente repassei as perguntas pra vc! Depois passa lá no Um pouco de shoujo pra conferir, mas vc sabe, vc não é obrigada, nem um pouco, a fazer!!!

    Bjs

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    1. Rá! Selos, é claro que eu farei!!! Vou lá conferir!!! :)

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