terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Devaneios de fim de férias....


Fazia um bom tempo que eu não tinha um período de férias tão longo quando o desse ano e de muitas formas eu pude aproveitar para ler, dormir, encontrar amigos e avaliar minha vida e minhas possibilidades.

A pior parte foi avaliar minha vida e minhas possibilidades... Tendo a refletir demais sobre as coisas, pesar prós e contra, colocar tudo pelo avesso, de cabeça para baixo e amarrotar as dobras das possibilidades... Sou um saco de ser humano!

A melhor parte foi vaguear pela cidade com pessoas amadas. Lembrei muito daquela fala escrita pelo Tolkien: "Nem todos os que vagueiam estão perdidos.", embora, para ser bem honesta, na maior parte das vezes, ao longo da minha vida, eu me senti muito perdida, muito naufraga e vagante kkkk...


Eu mal aprendi a boiar nesse mar de angustia e a vida já me cobra a habilidade de nadar enquanto o meu maior desejo é aprender a voar. Ainda tenho inveja das pipas empinadas pelas crianças e adolescentes de meu bairro. Elas voam alto em meio a um céu azul enquanto eu estou aqui tendo que me virar na superfície.


Quem me dera poder trocar meus ossos por uma armação feita com aquele pauzinho finíssimo tirado da palha de coqueiro, minha carne por papel de seda colorido e fazer do meu cabelo linha de algodão sem cerol. Eu voaria pelo céu da zona norte dessa cidade estranha e ficaria acima das pessoas e das casas indo muito além da curva. Caso alguém cortasse a linha responsável por prender meu destino ao chão eu arranjaria um jeito de encontrar uma brecha no espaço e no tempo para voar até outro multiverso e nesse universo quem sabe os barcos navegassem no ar e entre as nuvens e eu poderia então voltar a ser gente de carne, osso e cabelo e desbravar os ares.

Sei que estou sonhando acordada, quase delirando para ser mais exata, mas andei olhando o céu de cima da lajem de casa e as cores do entardecer e esse exercício só da nisso... Confesso que também rolou uma visita ao Museu Cais do Sertão no centro do Recife e talvez eu tenha ficado tempo demais olhando um certo barco de metal.



Perdão por está sonhando acordada enquanto escrevo, mas é minha ultima noite antes de voltar a encarar minha profissão e suas particularidades. E em mim se misturam medo e ansiedade pelas coisas e pessoas com as quais irei cruzar. Peço proteção a Deus, respiro fundo e sigo adiante por falta de opção e obstinação pura, mas também penso e sonho com outros mundos e outras possibilidades enquanto espero pela passagem das horas.

Diferente do meu corpo que não pode se transformar em paleta, seda colorida e linha de algodão, minha mente conhece os mistérios do voo e é livre para alcar as alturas que deseja. As vezes meus dedos acompanham esse voo e precisam registrar para que todo meu sistema aguente o processo de enfrentamento da realidade cotidiana.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

HQ Histórias Paulistanas [Divulgação]

Não é bem do meu costume fazer esse tipo de divulgação por aqui, mas eu amo São Paulo. A cidade não vive exatamente um bom momento, mas algo me diz que ela sobreviverá pois nesse tipo de cidade há uma força que transcende e um desejo de sobreviver a Invernos, Verões, Dragões, Tigres e administradores pavorosos.... Então quando recebi um e-mail falando de "Histórias Paulistanas" senti o impulso de trazer ele para cá como forma de homenagear essa cidade incrível.

HISTÓRIAS PAULISTANAS

Com roteiro de Lica de Souza e desenhos e cores de Flávio Luiz, HQ mostra a vida em São Paulo pelo olhar de personagens de diferentes vivências.

Às vezes amarga às vezes doce, solidária, agressiva, mas jamais indiferente. Essa é vida em São Paulo. Um dos vencedoras do PROaC 2015, Programa de incentivo à cultura do Governo do Estado de SP, o HQ Histórias Paulistanas tem seu foco nas relações humanas, sempre difíceis e ricas em conflitos na maior cidade do Brasil.

Crítico mas sem perder o olhar de ternura pela metrópole, Histórias Paulistanas conta histórias que passeiam pela capital paulista sem cair no lugar comum. Os personagens se cruzam de forma tangencial, tendo como ponto de partida um edifício. A partir daí, somos então convidados a acompanhar um final de semana comum deste prédio - onde algumas personagens moram e outras trabalham - dois dias que mudam de forma definitiva seus destinos. Com suas filas, moradias distantes, engarrafamentos, protestos e greves, a cidade e sua pluralidade atuam como um organismo vivo na vida de cada indivíduo que permeia esses enredos.


AS HISTÓRIAS

Cada história tem um título que remete a locais conhecidos por quem vive em São Paulo: Clube, Praça, Play e Rua - cada uma delas, desenvolvendo a narrativa de um núcleo diferente de personagens.

Clube

Acompanhamos o final de semana de folga de Ednéia. A grande quantidade de conduções que pega para se deslocar para casa, em Parelheiros, o trabalho que prossegue em seu descanso, e seu filho cheio de vida que deseja se divertir em um clube popular.


Praça

A solidão da velhice, a indiferença dos jovens, a balbúrdia da cidade que não é mais compreendida: vemos um passeio na praça em uma tarde de domingo pelos olhos de um solitário velhinho. 

Play

Após uma dura separação na infância, Alice e Paulo se encontram no auge da juventude. As afinidades e o amor renascem com tudo enquanto eles caminham pela madrugada de São Paulo e tentam restabelecer os vínculos do passado.

Rua

Um casal de migrantes enfrenta o transporte público para encontrar uma maternidade em meio a uma greve de hospitais e postos de saúde. Prestes a dar à luz, eles acabam em meio ao conflito de uma grande passeata. 


AUTORES



Donos da editora Papel A2 Texto & Arte, Lica de Souza e Flávio Luiz trabalham novamente juntos em Histórias Paulistanas, depois de publicar em 2015 a HQ 3 histórias de terror e uma nem tanto, uma compilação de histórias curtas publicadas anteriormente.

Com trinta anos de experiência em produção cultural e produção gráfica, Lica se dedica atualmente a impulsionar sua produtora cultural e editora, produzindo cursos e projetos. Também ministra cursos de filosofia e produção gráfica. Para o grande público, também escreve sobre Filosofia, Comportamento, Mobilidade e Inclusão em seu blog (www.licadesouzablog.wordpress.com.br).

Flávio Luiz é autor de Aú, O Capoeirista, O Cabra (HQMix 2010), Jayne Mastodonte (HQMix 1999), Rota 66 e Aú o capoeirista e o fantasma do farol (HQMix 2014). Premiado nas categorias Cartoon (1994) e Charge (2000) pelo Salão Internacional de Humor de Piracicaba, também participou de diversos salões de humor no Brasil e exterior. No mercado, trabalhou como ilustrador da agencia África, em São Paulo, e hoje atua como freelancer e cuida de perto de suas publicações. www.flavioluiz.net

FICHA TÉCNICA

Histórias paulistanas
Roteiro: Lica de Souza
Desenhos e Cores: Flávio Luiz
Vencedor do PROAC 2015
Formato 17x26 cm
Brochura
Preço de capa: R$ 46,00
Editora: Papel A2 Texto & Arte

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Palarva: poesia visual e sonora de Paulo Bruscky


Paulo Roberto Barbosa Bruscky é um artista multimídia, poeta que durante a década de 1960 iniciou uma vasta e curiosa pesquisa no campo da arte conceitual. Eu não tinha a minima ideia de quem seria Paulo Bruscky, nunca tinha ouvido falar dele até o dia no qual marquei com meus amigos um encontro no centro da cidade, eles se atrasaram, resolvi entrar no Espaço Caixa Cultural.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O mágico de Oz de L. Frank Baum


Eu lembro das circunstancias nas quais "O mágico de Oz" me foi apresentado. Foi em uma apresentação de trabalho na escola durante o 2º ano do Ensino Médio. Uma das minha colegas de turma leu e apresentou a sala a leitura em uma tarde assim como essa, em pé no lado direito da sala. A apresentação foi legal, eu fiquei com vontade de ler o livro, li, o tempo passou e de repente senti vontade de  caminhar novamente pela estrada de tijolos amarelos com Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. Foi como se Oz estivesse me chamando de volta e eu voltei!


Foi maravilhoso encontrar novamente a Dorothy e o seu cachorrinho Totó e viver com ela sua jornada mágica na Terra de Oz onde espantalhos ganham vida, leões falam e homens feitos de carne e sangue podem se transformar em homens de lata... Uma terra na qual não existem fadas, apenas bruxas que podem ser boas ou más, mas sempre são poderosas e o único mago é um farsante, não por escolha própria, mas por imposição cultural, afinal as pessoas pedem a Oz o impossível e como conseguir o impossível sem um pouco de imaginação e muito de farsa?!?!

Toda a história de Dorothy e do seu cachorro Totó começa quando um tufão arranca a casa na qual ela vive com tia sua amada tia Em e seu tio Henry no meio do Texas e a leva para a Terra de Oz onde ela aterriza em cima de uma bruxa má da qual só sobra um par de sapatos prateados que passa a pertencer a menina. Depois disso começa sua jornada, ninguém sabe como ela pode voltar para casa, então dizem a ela para procurar o "Grande e Terrível Mágico Oz" na maravilhosa "Cidade das Esmeraldas" na qual ela vai chegar se caminha pela estrada de tijolos amarelos.


Sem muita demora a menina se arruma e se lança em sua aventura e vai ao longo do caminho encontrando os seus lendários companheiros de caminhada:

O Espantalho que deseja desesperadamente um cérebro com o qual possa pensar!


O Homem de Lata, que deseja desesperadamente um coração com o qual possa amar!


E um Leão medroso que deseja desesperadamente uma dose de coragem com a qual possa enfrentar a vida na selva com os outros animais sem está continuamente os espantando.


Juntos eles vão caminhando pela estrada e enfrentando os desafios oferecidos por ela como: buracos, rios, precipícios, plantas venenosas. Fica claro que sozinho nenhum dos cinco conseguiria ir muito longe, mas juntos eles conseguem vencer os desafios impostos pela natureza e por incrível que pareça o Espantalho demonstra ser bem inteligente, o Homem de Lata ter um coração imenso e o Leão uma incrível capacidade de enfrentar seus medos quando precisa ajudar seus amigos.


Quem não prometia nada e subestimava suas habilidades mostra-se capaz de enfrentar e vencer desafios, já quem prometia muito como o Poderoso Mágico Oz... Bem, não vou dar spoilers, vai que alguém ainda não leu.

Sobre o autor, preciso dizer que L. Frank Baum em um segunda leitura se mostrou ainda melhor que na primeira. O seu texto é claro, descritivo e mágico, ele nos leva para esse outro mundo mágico e nos prende. Também é encantador perceber o quanto o texto não é pedagogizante. Tudo em "O mágico de Oz" é lúdico e se a história de Dorothy, Totó, Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde tem uma lição para os leitores isso quem ler vai descobrir sozinho, através de sua capacidade de interpretar o texto.

Talvez um dos motivos pelos quais esse livro se tornou um clássico infantil seja o fato de que o autor não comete o crime literário de duvidar da capacidade infantil de compreender as entrelinhas. E como há entrelinhas no texto de Frank Baum! 

"O magico de Oz" me convidou a pensar como costumamos duvidar da nossa capacidade, como muitas vezes esperamos encontrar em alguém ou algo uma resposta que já existe em nós... Também me lembrou que amizade é algo que se constrói enquanto caminhamos e algumas permanecem apenas por alguns instantes e outras pela jornada inteira. Me fez pensar que de vez em quando é normal sair da estrada, adormecer no caminho, se perder, mas nesses momentos, caso a gente queira voltar para casa, é preciso voltar a estrada e seguir até a Cidade das Esmeraldas e além dela. Não por acaso existe adaptações e mais adaptações desses clássico.


Adoro o musical de de 1939, Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Jack Haley, Bert Lahr, Billie Burke e Margaret Hamilton. Não canso de rever e me encantar com as músicas e de me sentir arrebatada pela interpretação dos atores. A hq publicada pela Editora Farol também é bem fofa, uma adaptação bem fiel a obra original.

Ah, antes que esqueça, preciso dizer que amei ler edição de bolso da Zahar, ela é pequena, cabe na minha mão direitinho e tem as ilustrações originais... me deu uma sensação de ter voltado no tempo... 

sábado, 14 de janeiro de 2017

5 Listas de 5 Livros


A Menina das Ideias, Aleska, inventou recentemente um desafio em sua page no facebook, o primeiro desafio foi escolher 5 livros favoritos, mas quem disse que eu conseguia fazer a lista? 


Para me ajudar a cumprir o desafio a Aleska me sugeriu fazer várias listas de 5 livros e dentre elas tirar os livros escolhidos para meu top 5. Eu fiz o exercício e gostei do resultado, assim resolvi registrar aqui as ditas listas.

5 Livros Favoritos


"Stardust" (Rafael nunca vou agradecer o suficiente por essa edição ilustrada) é um conto de fadas para adultos, no qual a arte de Charles Vess e a escrita de Neil Gaiman se uniram para compor uma obra prima. "Quando as bruxas viajam" do Terry Pratchett e um livro no qual humor, critica social e filosofia conseguem se juntar de um jeito... Putz, não canso desse livro. "Desejo a Meia-Noite" foi o primeiro romance histórico que me encantou, depois dele me encantei pelo gênero e Lisa Kleypas virou uma de minhas autoras favoritas. "Orgulho e Preconceito" dispensa comentários, Jane Austen criou personagens incríveis, encanta gerações, é genial. Na verdade meu livro favorito de Fernando Pessoa é "O eu profundo e os outros eus", mas ele está com a V então coloque a "Antologia Poética" publicada pela L&PM, é simples e linda para servir como representante!

5 Romances de Época


"O último dos canalhas" é um dos melhores romances do multiverso, a Loretta Chase consegue é uma autora divertida e emocional, eu morro de ri com os textos dela e também consigo chorar. Já falei de "Desejo a meia-noite", mas não me satisfaço até dizer que o cigano Can com sua pele de ébano é o meu favorito entre os favoritos. "Nove regras a se ignorar antes de se apaixonar" é tão perfeito que dois meses depois de ter terminado de ler me peguei relendo. "A rosa do Inverno" é um livro tão bom que mesmo tendo me dado uma bela crise alérgica (minha edição é velha e oxidada) eu li até o fim e ri e chorei. "Ligeiramente Casados" é o vol. 1 da Série Os Bedwyns e é o meu favorito pois abre uma série na qual os mocinhos são tão conscienciosos que eu sempre digo que eles leram "O contrato social" do Jean-Jacques Rousseau.

5 Histórias em Quadrinhos


"Ms. Marvel: Nada Normal" foi a HQ responsável por me levar para o mundo das heroínas, comprei por ter achado interessante a ideia de uma  heroína não branca, imigrante paquistanesa e muçulmana, não me arrependi. "Sinal e Ruido" foi a primeira HQ na qual vi em ação a dupla Neil Gaiman e Dave Mckean, é um livro perturbado, daqueles que a gente leva mil vidas para digerir e na milesima primeira vida ainda vai se surpreende com alguma coisa. "O apanhador de nuvens" é uma coisa linda da vida, uma história na qual magia e vida real se misturam e levam o leitor a um estado de encantamento Beka e Marko brilharam nesse trabalho. "Eu mato gigantes" é simplesmente perfeito! Barbara é uma Dom Quixote adolescente cheia de imaginação que foge a todo padrão, ela é enternecedora. "O jardim das palavras" fala sobre amizades improváveis e o quanto um pouco de empatia e compreensão podem nos ajudar a sair do buraco.

5 HQs de de Heroínas 


2016 foi o ano no qual descobri as heroínas Marvel e DC, elas invadiram a minha estante começando por Kamala Khan a Nova Ms. Marvel por isso ela reapareceu nessa lista com "Ms Marvel: Nada Normal". "A sensacional Mulher-Hulk" tem lugarzinho especial no meu coração, gosto muito do jeito que ela se aceita nessa história e é toda empoderada. "Mulher-Maravilha Sangue" é uma das melhores coisas do Novos 52 da DC foi minha primeira experiencia com ela e eu me apaixonei. A "Elektra" da Nova Marvel não tem um roteiro primoroso, mas a arte de Michael Del Mundo é algo para se ter na estante, pois enche os olhos. "Viúva-Negra" é uma heroína densa, com uma história cheia de mistérios, confesso que os conflitos emocionais de Natasha Romanov me emocionaram, ela tem um lugar no meu coração e estante.

5 Clássicos


Essa foi uma lista difícil de ser feita! Eu gosto muito de ler livros centenários, gosto de viajar no tempo, não escolhi História para ser a ciência da minha vida aleatoriamente. Comecei por "Os três mosqueteiros" porque Dumas-Pai é um autor com um senso de humor irônico MARAVILHOSO. Adoro como ele debocha das monarquias francesa e inglesa, como explora a vida cotidiana e tem Milady, a melhor vilã de toda literatura. "Razão e Sensibilidade" é aquele romance de Jane Austen que as pessoas costumam conhecer depois de "Orgulho e Preconceito" e se apaixonar mais ainda pela inglesa, gosto mais de Elinor Dashwood que de Elizabeth Bennet. Já odeie "O morro dos ventos uivantes", mas o tempo passa e nos tira os excessos e faz com que compreendamos a beleza do mundo austero, duro e nu de Emily Bronte. O "Livro das Mil e Uma Noites" dispensa apresentações, mas preciso dizer que é a melhor aula de Idade Média que você respeita, com cada história escabrosa. Nenhum manual de história chega aos pés! "Poetas e Escritores Românticos do Brasil" é o livro cujo texto releio há mais de 10, tenho textos decorados, cito as vezes e não canso da intensidade emocional desses homens maravilhosos, apaixonados e as vezes tão ingênuos.

Enfim, é isso. 5 listas com 5 livros.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

No Dia 8 de Dezembro, TODOS os caminho levavam ao Morro da Conceição

Durante a primeira semana do mês de dezembro, qualquer observador da vida cotidiana do Recife tem a nítida sensação de que todos os caminhos levam ao Morro de Nossa Senhora da Conceição. Eu, ao menos, tenho!


A Festa religiosa que ocorre em torno a devoção a imagem de Nossa Senhora da Conceição localizada no alto do Morro da Conceição é algo muito central para qualquer pessoa que more na Zona Norte da cidade, é impossível não ser notada de um jeito ou de outro. Pessoas de todos os lados da cidade e região metropolitana se deslocam em debandada de todas as formas possíveis para se encontrar com uma imagem gigante da Virgem localizada no topo do morro levando a Ela pedidos e agradecimentos.

Consequentemente, aos pés do morro se concentra uma infinidade de comerciantes ambulantes vendendo todos os tipos possíveis e imagináveis de coisas, assim como uma infinidade de brinquedos meio caindo aos pedaços mais suficientemente consistentes para não causar grandes acidentes.


Durante toda minha infância eu desejei ir ao menos uma vez a "Festa do Morro". Não pela devoção, pois desde que me lembro congrego em uma vertente neopentencostal do cristianismo e me foi incutida uma solida descrença na capacidade dos santos de obter graças diante de Deus, mas sim pela festa em si, pela diversão, pelos doces, pelos brinquedos. Muitas crianças de mina denominação religiosa com pais mais liberais iam, todas as crianças não evangélicas iam, por trinta anos eu não fui. Mas, quando vi todos os ônibus adornados com a placa "FESTA DO MORRO", não resistir!

Me vesti com meu espirito de Sindbad e na companhia da minha amiga Mercia resolvi desbravar um espaço estrangeiro para mim em minha própria terra. Foi maravilhoso!!!!


Subir o Morro da Conceição em dias de Festa do Morro não foi só uma experiencia de satisfazer um desejo infantil de me empanturrar de doces, espetinhos, rapadinhas, pasteis, refrigerante e sorrisos infantis. Depois de passar uma vida me dedicando ao estudo da História foi também uma experiencia antropológica e cultural, foi interessante vê a diversidade de gênero dos visitantes que Nossa Senhora recebe com seu rosto congelado em uma expressão de longanimidade eterna, gente com pé no chão, ajoelhada, com tijolos na cabeça, com velas e mais velas, muitas crianças pequenas vestidas de azul. Os filhos postiços da Virgem do Morro parecem ser pessoas de desejos simples como acolhimento, moradia e saúde para seus filhos.


Interessante também foi perceber como muita gente faz da festa simplesmente um momento de diversão ou de arrecadação de fundos para ajudar nas inúmeras providências necessárias para o romper do ano como pintar a casa, restaurar moveis, comprar novos lençóis, toalhas de mesa e de banho, sapatos, roupas para as crianças. As providências de fim de ano não são apenas caprichos, elas precisam ser funcionais, afinal o ano é longo e cheio de horrores, para alguns a crise é perpetua.


Há quem pense que a multidão pensa com uma mente só, um tipo de manada rumo a uma fonte d'água incerta, mariposas em torno de uma luz. Enquanto eu me juntava a multidão que sobe o Morro da Conceição me ocorreu estarem essas pessoas erradas sobre a multidão. A multidão não pensa coletivamente, ela congrega pessoas com anseios, desejos e motivações diferentes, na Festa do Morro vi pessoas interessadas em sua devoção, pessoas interessadas em agradecer e pedir graças a Ela, pessoas que estavam ali só para vender qualquer coisa - brinquedos/comida/sonhos, pessoas interessadas em se divertir sozinha ou com amigos, pessoas prontas para consumir o máximo possível de bebida alcoólica.


Foi uma experiencia interessante, me sentir vivendo algo meio fora do tempo e do espaço. Algo que se repete ano após ano há mais de cem anos. Algo me diz, meu conhecimento histórico talvez, que festas realizadas próximas aos solstícios e equinócios existem desde o surgimentos dos primeiros humanos nesse planeta girante, mas eu nunca havia participado de nenhuma, então teve ares da magia para mim. Posso ser que eu seja apenas essa pessoa estranha que sou com minhas impressões estranhas da vida, mas havia qualquer coisa de diferente no ar, no entardecer, nas várias  pessoas misturadas com suas várias expectativas.


Outra coisa a se dizer é que essa foi a 106ª Festa do Morro de Nossa Senhora da Conceição e foi a primeira ocorrida depois da Arquidiocese de Olinda e Recife terem reconhecido essa Igreja localizada nos recôncavos da Zona Norte do Recife como um Santuário. Ou seja, essa devoção, essa festa, é algo construído pelas pessoas, as autoridades tiveram que engolir e aceitar.


Uma amiga católica me disse, ciente de que eu ia essa ano e um pouco receosa do meu olhar critico, que a Igreja Católica Apostólica Romana não aprovava muitas das situações protagonizadas pelos fieis. Mas, enquanto eu observava a situação toda com meus próprios olhos me ocorreu que Nossa Senhora é mãe e as mães entendem muita coisa.


Todo esse texto foi escrito enquanto eu ouvia Barbara Bonney cantando a Ave Maria de Schubert, uma canção especial para mim não por questões de devoção, mas sim de memória. Eu cursei a maior parte de meu Ensino Fundamental e Médio no período da tarde, quando largava ouvia o auto-falante de alguém, sempre as seis da tarde tocando essa música. Essa música embalou meu entardecer por anos e o entardecer segue sendo minha hora favorita do dia.

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.
(Apocalipse 12:1)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Era uma vez uma turma que dava muita dor de cabeça...


Era uma vez uma turma que dava muita dor de cabeça, cheia de energia costumava tirar a professora do sério quase todos os dias.

Era um tal de "fulando vai para a direção agora!", "sicrano para com isso!", "meu filho o que é isso?" e muitas coisas do gênero...

Mas, o tempo foi passando... passandooo... Um ano e depois o outro e mais outro... e as dificuldades foram dando lugar aos sorrisos, as muitas discussões acaloradas, aos debates constantes, ao aprendizado... revisões... provas só por formalidade, afinal aprendizado a gente vê no cotidiano e não em uma folha de papel.

Construímos aos trancos e barrancos muitos momentos de felicidade enquanto falávamos de história, animes, filmes, absurdos, como egípcios brancos, imperialismo, evolucionismo cientifico, e coisas do gênero.

Foi uma linda experiencia... As vezes eu morria de amor, as vezes tinha vontade de sair correndo... As vezes conseguia ir longe, as vezes não saia do canto por longos dias... Faltou China e Oceania no nosso cronograma, sobrou bons papos, diálogos incríveis... crescimento conjunto.

Reencontrei o prazer de exercer meu oficio com o 6º B de 2014, que virou 7º B em 2015 e 8º B em 2016! Nem preciso dizer o quanto amo esses peraltas maravilhosos!


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ainda há coração

É engraçada essa coisa chamada vida adulta. Ao longo dela deixamos coisas e mais coisas para trás e chegamos a ter certeza, jurar de pé junto, o quanto tudo que ficou para trás por nossa livre e espontânea vontade não tem mais a minima importância...

Porém, em um susto, quando menos esperamos, em um movimento inesperado do vento, do rosto, da página, do clique descobrimos absurdados de espanto o quanto nos enganamos. Como canta o Alceu Valença, "a gente se ilude dizendo já não há mais coração".

Atualmente a música Coração Bobo tem embalado vários momentos da minha vida. A constatação do obvio contida em sua letra misturada com os sons da orquestra e da voz do Alceu me dão uma sensação de alivio e ainda me fazer mexer a cabeça hahaha \o/ 


sábado, 3 de setembro de 2016

Meus 2 irmãos mais novos!

A vida me deu irmãos. Irmãos consanguíneos, de afinidades, de sonhos, de ideias, de coração. E sou em geral grata por essas criaturas que vez ou outra aparecem para compartilhar cargas e alegrias, partilhar o pão e caminhar comigo por lugares claros e escuros.

Mas entre todos os mais novos tem um lugar especial. Talvez por ter me tornado irmã mais velha de alguém há 28 anos atrás ter me trazido uma estranha sensação de conforto diante da vida, talvez por eles serem os mais próximos fisicamente, talvez porque tenhamos sempre partilhado tanto sorrisos, farpas e intimidades entre nós. 

Ou simplesmente por eles serem motivo de um orgulho besta que aflora da minha alma como a vegetação da caatinga depois de qualquer chuva. Junior e Renato são implicantes, chatos, cabulosos, me tiraram do sério mais vezes do que consigo contar e, apesar de historiadora, sou boa de conta. No entanto, por Deus, como não morrer de amor?!?!?

Júnior, Eu, Renato na formatura dos dois
Lembro bem como cada um entrou na minha vida. Junior há 28 anos atrás em um manhã de sol com direito a céu azul e nuvens brancas. Renato em tarde igualmente quente, no meio de uma feira de ciências há 15 atrás. Junior no primeiro encontro eu já soube que seria meu irmão, Voinha me disse com todas as letras necessárias. Renato eu descobrir na convivência quase diária que a amizade construída entre ele e Junior criou.

Independente da forma como essas irmandades foram descobertas eu tenho a sorte de poder dizer que elas tem sido ao longo dos anos uma fonte de conforto, alegria, brigas e entendimentos. Esses dois são aquele tipo de pessoa esquisita, com ideias fora do comum, forte talento artístico e capazes de fazer uma conversa corriqueira ficar muito viajada. São capazes de enfrentar obstáculos imensos sem perder a dignidade. Construir na convivência diária demonstrações de amor sem tamanho.

As fotos que ilustram o post foram tiradas no dia da formatura dos dois, porque insatisfeitos em passar parte do Ensino Fundamental e todo Ensino Médio juntos os dois resolveram cursar o mesmo curso na mesma universidade e turma. Aliás, os dois cursaram História no curso noturno na Universidade de Pernambuco, sem jamais repetir uma disciplina, trabalhando no horário oposto ao do curso e ainda ser tornar voluntário em um cursinho pré-ENEM gratuito voltado para alunos e ex-alunos de escolas públicas.

Apesar da graduação em História ter fornecido muita lenha para ser queimada nas discussões infinitas das quais ninguém queria sair como o errado e todo mundo queria esta eternamente certo. Vê os dois portando o diploma de GRADUAÇÃO PLENA EM HISTÓRIA foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Admitamos, meu orgulho e felicidade são justificáveis em dobro quantas irmãs podem dizer que seus irmãos mais novos seguiram seus passos???? cof cof cof... Eu posso \o/

Por fim, como já está ficando feio essa exibição exagerada de afeto, sendo hoje aniversário de vinte oito anos de Junior é também o aniversário do dia no qual me tornei irmã mais velha e a experiencia de ser irmã mais velha é um dos elementos mais fortes e centrais da formação do meu caráter e da forma como enfrento e entendo o mundo e pela primeira vez desde que Renato se tornou meu irmão esse dia se passa sem que ele esteja nesse mundo.

É muito ruim dormir e acordar em um mundo no qual alguém tão próximo não está mais presente. Ninguém se prepara psicologicamente para perder um irmão mais novo. Não está nas letras normais do contrato de existência o perigo iminente de ter a convivência com essas criaturas que acompanhamos crescer irem embora para o outro lado da vida. Ainda não sei me equilibrar muito bem nesse mundo tão vazio dos sorrisos, implicâncias e trejeitos de Renato.

Toda vida temos em relação aos nossos irmãos um estranho sentimento de posse, eles são nossos para tudo nessa vida e pela vida toda. Não da para doar, vender, trocar ou alugar caso ele te irrite, cutuque, incomode, deboche, acorde você de madrugada, pegue seus livros emprestados e devolvam amassados ou partam para o outro lado da vida repentinamente. Não existem ex-filhos, ex-mães, ex-pais e ex-irmãos!

Para sempre terei dois irmãos mais novos. Para sempre terei Junior, Renato e Rafaela como irmãos caçulas! Para sempre terei orgulho besta da trajetória e das conquistas deles! Não existe e não vai existir ex-irmão ou ex-irmã! Irmão é para sempre! E eu creio que do outro lado da eternidade vamos nos encontrar novamente e haverá sorrisos, abraços, beijos, implicâncias e tudo o mais! Renato, você é para sempre meu irmão! Estou vivendo com muitas saudades!

sábado, 20 de agosto de 2016

Boiar...


Não sei se ainda tem alguém aqui, já faz uns bons dois meses que não posto nada. Mas, preciso quebrar esse jejum para deixar registrado que o hiato entre outras coisas se deve ao fato de todos os computadores da casa terem pifado ao mesmo tempo e demorei uns dias para encontrar uma uma possibilidade viável para a compra do aparelho novo.

Muita coisa aconteceu nesse tempo sem escrita, tenho a impressão de ter vivido umas três vidas inteiras e não ser mais a mesma. Claro, pretendo escrever sobre tudo isso muito em breve. No entanto, como nem toda pretensão se concretiza nessa Terra, não ouso prometer nada nem mesmo a mim, mas acredito na possibilidade desse blog voltar a respirar.

Enquanto eu não escrevia, a vida se tornou dolorosa além daquilo que eu considerava possível. Nos termos do contrato de uso desse corpo e dessa vida não lembro de ter lido algo sobre a possibilidade da convivência com uma dor tão ruim de carregar quanto essa que habita em mim. Devia ser ilegal algo assim acontecer as pessoas. Todavia não só é perfeitamente legal como corriqueiro, cada vez que conto sobre as agulhas que me perfuram o coração as pessoas me respondem contando de uma aflição próxima, igual ou, absurdo dos absurdos, infinitamente maior que a minha.

Aprendi recentemente a boiar sobre a água e confesso que ultimamente ando aplicando esse conceito a vida. Fecho os olhos, estico o corpo, respiro fundo e permaneço na superfície da água me deixando levar pelo sabor da corrente na tentativa de recobrar as forças... Agora não, mas muito em breve vou abrir os olhos encarar o azul do céu e começar a bater braços e pernas tomando novamente o curso da minha vida.