quinta-feira, 15 de junho de 2017

Peter Pan de J. M. Barrie [Literatura Infantil]

  
Se eu tivesse me auto-desafiado a ler e resenhar clássicos da literatura infantil e contos de fadas em 2017, não estaria lendo e resenhando com tanta frequência esses gênero. Como não me auto-desafiei, aqui estou para comentar mais um clássico da literatura infantil.

Ou, talvez, essa volta ao mundo literário da infância tenha a ver com a incrível sensação de vazio na qual me sentir envolvida, as vezes ainda me sinto, há algum tempo atrás. De muitas formas literatura infantil quando bem feita tem qualquer coisa pronta a abraçar; acolher; levar em conta o fantástico, o misterioso, o inexplicável; e, mesmo dentro de uma enorme complexidade, a literatura infantil é simples, simplicidade nesses momento é tudo.


A primeira sensação que tive lendo J. M. Barrie foi de uma profunda nostalgia da infância, existe qualquer coisa em nós que não sobrevive a infância. Esse sentimento foi intensificado ainda mais pela experiencia de ler a história em uma edição completamente ilustrada por Eric Kincaid.

Amo edições de bolso, são charmosas, cabem na bolsa e na palma da mão, mas nada produz uma imersão tão grande no mundo infantil e nas memórias de infância quanto ler um livro infantil em formato de livro infantil. Ler livros assim fazem o tempo voltar, me senti com nove anos de novo, senti saudades das minhas edições há muito desaparecidas de Simbad e Ivanhoé e da minha própria Terra do Nunca.


Quanto a história do Peter, apesar do quanto ela foi explorada pela mídia nas ultimas décadas é impressionante o quanto a narrativa de Sir James Matthew Barrie ainda tem a dizer.

Barrie conta a história de um menino em situação de rua, desamparado que vive com outras crianças em situação de rua e desamparadas na Terra do Nunca, um lugar no qual essas crianças são chamadas de "meninos perdidos" e não crescem. Toda aventura narrada no livro começa quando quando Peter rouba Wendy e seus irmãos do conforto do seu quarto as vésperas do Natal e os levar voando para essa terra de maravilhas e aventuras.

Confesso que várias vezes me peguei pensando se a aventura dessas crianças se deu em um mundo a parte ou se eles simplesmente vagaram pelas ruas de Londres e a imaginação infantil fez o trabalho de transformar a realidade em magia.


Quando Peter explica a Wendy sobre a origem dos meninos perdidos foi impossível não lembra do "Capitães de Areia" de Jorge Amado e daquelas crianças em situação de rua vivendo a aventura de existir a margem pelas ruas, becos, vielas e praia de Salvador. É desalentador pensar em crianças perdidas, se unindo para sobreviver, usando dos recursos da infância para enfrentar piratas e perigos.
"São os meninos que caem dos carrinhos quando as babás não estão olhando. Se não forem reclamados em sete dias, são mandados para longe, para a Terra do Nunca. Sou o chefe deles."
Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar. O Capitão Gancho as vezes parece uma vitima e os piratas são homens para lá de desamparados, mas eu me pergunto, o que se pode esperar de uma pessoa a quem até o prazer de ouvir uma história é negado?

As "crianças perdidas" não contam com nenhum adulto para cuidar delas, vivem escondidas, a margem da sociedade em mundo cheio de possibilidades para aventuras, porém no qual é possível se passar inclusive fome. É verdade que existe Sininho, a fada mais ciumenta do multiverso, que é adulta e vive com as crianças, porém ela não assume o papel de cuidadora em momento algum.

E sobre ausência de adultos, é mentira dizer que na "Terra do Nunca" eles não existem. As sereias, os indígenas e os piratas são adultos, porém estão ocupados demais vivendo suas vidas e cuidando de suas próprias crias, para se ocuparem daquele bando de "pestinhas". E nesse ponto lembrei do Chaves do Roberto Gómez Bolaños vivendo em um barril, eternamente faminto, constantemente humilhado pelas crianças da vizinhança e tolerado pelos adultos por não ser violento. 


Ninguém humilha Peter e as crianças perdidas, pois elas são violentas, agressivas e só obedecem suas próprias regras. Vez ou outra tem um ato de generosidade aqui e ali pelo qual são recompensadas e também são capazes de estabelecer alianças, mas sob ameaça elas sempre reagem com ferocidade.
"- Sabe, disse Peter - não conheço história alguma. Os meninos perdidos também não.
- Que coisa! disse Wendy.
- Você sabe, perguntou Peter - por que as andorinhas constroem ninhos no beiral das casas? É para ouvir as histórias que contam para as crianças, à noite..."

As crianças perdidas são livres, assustam quando exercem sua liberdade e comovem quando mostram o quão carente de mães são. Uma vez instalada na toca das crianças Wendy vira a mãe de todas elas e com amor maternal assume todas as funções de mãe como se brincasse de casinha. Não é a toa que com o tempo a melancolia toma conta da menina e o desejo de voltar para casa surje em seu horizonte, para ela a Terra do Nunca não é nada lúdica.

E sobre carência de mãe, também me comove ao extremo a carência dos piratas. Para mim, eles são os meninos perdidos que sobrevivem a infância e Peter Pan não é um nome próprio e sim o titulo dado ao chefe dos meninos perdidos, uma vez adulto ele vira o Capitão Gancho em um ciclo sem fim. E isso me lembra a vida das crianças em situação de rua.
"- Pan, perguntou ele - quem é você?- Sou a juventude, sou a felicidade, respondeu Peter. - Sou um passarinho que acabou de sair do ovo.Era um absurdo, claro, mas, para o infeliz Gancho, era prova de que Peter não sabia quem era."

No mais, Peter Pan é uma história cheia aventura, magia. Recheada com seres fantásticos, magica, sensibilidade e provocações. Mesmo agora muito se pode falar sobre ela, é um clássico em si, uma história feita para provocar que não duvida da capacidade de compreensão do leitor e o leva a pensar sobre a realidade. Estou apaixonada por essa história!

10 comentários:

  1. É impressionante como desafios atrapalham! Realmente é muito melhor ler por prazer e aquilo que queremos ler.

    Eu não simpatizava com o Peter Pan. O filme Em Busca da Terra do Nunca que mostrava como a história foi pensada, me fez ver de outra maneira.

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  2. Oi! Adorei as alusões feita, a história do Peter pan é bem interessante e gera vários debates. Sempre fico intrigada e gosto de ler teorias sobre. Bjos ❤

    Click Literário

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  3. Eu nunca havia feito uma analogia entre meninos chamados "de rua" e os "meninos perdidos" de Peter Pan.
    Fantásticamente verdadeiro!

    Por outro lado, é muito triste pensar numa criança que nunca ouviu uma historinha.

    Gostei dessa postagem!

    BJK
    JAN

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  4. Olá, Pandora.
    Parabéns pela linda resenha. Eu nunca li esse clássico acredita? Acho que por mais adaptações que façam, o livro sempre tem um algo a mais para oferecer. Eu nem me imagino crescer sem ter a minha mãe. Até hoje eu preciso dela a todo instante hehe. Eu tenho vontade de reler essas histórias infantis, no caso dessa ler, acho que é sempre muito bom ver a mesma história com o olhar de adulta.

    Prefácio

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  5. Que coisa linda, não conhecia essa edição e já me apaixonei pelas ilustrações :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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  6. Oii
    ótima essa sua resenha, e essa edição parece estar linda, não lembro se li peter pan, ou se sou vi os filmes, mais esse é um dos clássicos que quero esses dias fiquei de olho em uma versão de capa dura na livraria. E realmente é uma história mágica.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  7. "Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar." Justamente o que eu disse na minha resenha sobre Peter Pan, que infelizmente não era ilustrada: era de bolso. Eu acho que o Peter é a exemplificação do "perverso polimorfo", uma criança que não foi moldada pela educação para se inserir na sociedade. Então o personagem faz muito sentido, mas tenho minhas dúvidas se recomendaria para alguma criança kkkk. Sobre o que vc disse da infância, eu concordo demais, não consigo abandoná-la de jeito nenhum (agora mesmo estou colecionando meu malvado favorito do kinder ovo, mas a luta não acaba. tá dificil tirar o gru e agnes). Beijos!

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  8. Oiiii, tudo bem? Amei sua resenha =D
    Amei as reflexões que você fez. E eu concordo muito com você, acho que existe alguma coisa nos livros infantis, que não existem nos livros adultos. Quando estou me sentindo sozinha, ou então rodeada de pessoas, mas ainda assim, solitária, sempre recorro a essas histórias. Acho que elas nos trazem algo que ficou esquecido lá atrás, que a gente nunca deveria ter deixado, mas que às vezes, no corre corre diário, a gente esquece de carregar.
    Um beijão
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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  9. Oi, Pandora!
    Menina, olha... que reflexões hein? Parabéns!
    Peter Pan nunca foi uma história favorita pra mim. Deve ser porque quando eu era criança queria crescer logo e o Peter Pan quer passar longe disso hahahhaah
    Beijos
    Balaio de Babados
    Sorteio Três Anos de A Colecionadora de Histórias

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  10. Oi Pandora! Eu só conheço a história pelas adaptações e gostaria muito de ler o livro, pois acredito que muito do que foi abordado eu ainda não conheço. E que linda edição essa, amei.
    Bom domingo!
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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