segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Mitologia Nórdica do Neil Gaiman


Quando descobri que Neil Gaiman escreveu um livro sobre mitologia nórdica eu tinha todos os motivos do Multiverso para ler.

Por um lado, tenho um fraco por narrativas mitológicas. Gosto da forma como elas são resilientes, como mostram a força da oralidade para passar conhecimento, elas antecedem a ciência e sobrevivem a ela, mesmo não possuindo mais o status de verdade, ainda encantando e instigam. E claro, quando tudo em uma aula de história falhar, e muita coisa pode falhar em uma aula de história, uma narrativa mitológica pode salvar a lavoura.

Por outro sou apaixonada por Neil Gaiman. O britânico se construiu através dos anos como um narrador privilegiado, ele é capaz de passear por praticamente todos gêneros possíveis e imagináveis. Gaiman roteiriza quadrinhos/séries/filmes, ataca de poeta, escreve livros infantis, seus romances são inesquecíveis, seus contos são precisos em sua capacidade assustar, instigar ou encantar.


Em "Mitologia Nórdica" somos apresentados a um conjunto de mitos nos quais se conta desde a criação do mundo e todas as coisas até os dias finais desse mundo. Sendo Odin, o pai de todos, Thor, o senhor dos trovões e o mais forte fisicamente de todos; e Loki, a personificação da astúcia, os protagonistas. E ora vejam só, os nórdicos também tem uma trindade? Ou o destaque dado a esses três se deve ao fato dos mitos desse povo terem sido registrados no papel e assim preservados por padres?

Bem, podem me chamar de chata, mas sempre que vejo trindades masculinas tão arrumadinhas nas narrativas mitológicas ou um destaque demasiado para divindades do gênero masculino em detrimento das do gênero feminino me pergunto: "Quem trouxe essas narrativas para os idiomas modernos?". Geralmente a resposta é, tcharam: PADRES CATÓLICOS. Não vamos questionar a importância de Odin, Thor e Loki, mas pensemos na possibilidade de terem existido outras formas de narrar o surgimento e fim dos tempos colocando em evidencia deusas e não deuses e essas narrativas, para nosso desespero, foram descartadas.


A parte minha epifania, o livro é uma delícia de ser lido! Entre as várias peculiaridades do pensamento mitológico nórdico Gaiman privilegiou a figura de Yggdrasill, a árvore do mundo; o Poço do Mímir, no qual se pode obter conhecimento; a origem dos tesouros dos deuses, como o Martelo de Thor por exemplo; o Ragnarök, a batalha final e o fim de tudo; e sobretudo a crença na astúcia, trapaça e jogos de palavra como coisas capazes de superar tamanho e força.


Os deuses nórdicos, a exceção de Thor, são trapaceiros, astutos e egoístas ao extremo. Se eles protegem o Sol, a Lua, a Beleza e a Primavera é por necessitarem disso e não por se sentirem de alguma forma responsáveis por alguma coisa. São criaturas interessadas em sobreviver ao inverno e garantir sua segurança em um mundo cercado de neve e perigo cujo fim está próximo.

Foi instigante pensar sobre as peripécias de Odin, um deus para o qual está devidamente informado é a coisa mais importante do multiverso. Ele trocou um dos olhos por conhecimento, sacrificou a si mesmo na Árvore do Mundo por mais conhecimento ainda e conserva próximo a os Corvos Huginn e Muninn ("pensamento" e "memória"). A figura de um "Pai de Todos" tão avido pelo saber coloca em evidência o quão central era para aquele povo as virtudes da mente. Na mitologia nórdica a força bruta mal orientada não sobrevive ao inverno, a boca do lobo, aos perigos da noite, ao perigo que existe além da Muralha.


Senti falta de contos nos quais as deusas tenham maior protagonismo. Gostei da forma como Gaiman conseguiu deixar seu texto leve, acessível a crianças alfabetizadas, possível de ser lidos para crianças em processo de alfabetização e instigante para adultos. Foi maravilhoso ler sobre Yggdrasill, a Árvore na qual se sustenta os Nove Mundos (Asgard, Álfheim, Nídavellir, Midgard, Jötunheim, Vanaheim, Nifleim e Muspell). Adorei conhecer a história dos três perigosos filhos de Loki. Ainda estou pensando no Ragnarök.

Não posso dizer muita coisa sobre a tradução de Edmundo Barreiros, mas achei a edição da Intrínseca linda e por isso enchi o post com imagens dela. E, para quem curte romances históricos, a Mary Balogh, autora da série "Os Bedwyns", se inspirou nessa mitologia para compor seus personagens e as personalidades deles.


sábado, 8 de julho de 2017

"Branca de Neve" de Jacob e Wilhelm Grimm


Outro dia acordei com saudades da Branca de Neve. Pois é, até eu me surpreendi, mas aconteceu. Durante a infância minha tia me deu um daqueles livros "com os melhores contos de fadas" e entre esses contos existia, claro, o da menina branca como a neve, de cabelos negros como o ébano e lábios vermelhos como uma gota de sangue.

Apesar das histórias de princesas não serem minhas preferidas, elas não vivem muitas aventuras e terminam casadas, a ideia de uma menina fugindo da morte se embrenhando em um território desconhecido, encontrando uma casa segura dentro desse lugar perigoso e vivendo com amigos gentis tendo uma floresta como quintal tem certo encantamento.

Se o início e o fim da história é pouco promissor, há consolo em saber que entre a vida com uma madrasta cruel e um casamento com um completo desconhecido, existiu para Branca de Neve uma vida com amigos e uma floresta como quintal.


Então, cheia de nostalgia, peguei a versão adaptada por Laurence Bourguignon com ilustrações de Quentin Greban e li. Em linhas gerais é uma adaptação bem fiel ao texto original dos Grimms tendo como ponto alto do livro o trabalho do Greban. As ilustrações são belíssimas, tomam páginas inteiras, proporcionam um mergulho dentro da história e causam aquele encantamento tipico da leitura de livros infantis.


No mais, a história da Branca fala de como uma mulher invejosa trama o assassinato da filha de seu marido de várias formas: contratando um caçador, envenenando um cordão de fios de seda, um pente e até uma maçã.


Conta como uma jovem foge da inveja de sua madrasta com a ajuda da generosidade de pessoas que se arriscam para lhe poupar a vida ou lhes fornecem abrigo em troca da colaboração com serviços domésticos.


É sobre pessoas capazes de burlar a morte através de observação, persistência e sorte. Por três vezes a madrasta consegue envenenar a menina, nas duas primeiras ela usa fios de seda e um pente, ambos são tirados pelos anões do corpo da moça. A maçã é apenas o terceiro artifício e esse é vencido pela sorte, pois quando o Príncipe encontra Branca de Neve adormecida em um caixão de cristal se encanta com ela e decide leva-la ao seu castelo, no caminho alguém tropeça e a fruta envenenada, presa na garganta dela, é colocada para fora.


Também é uma história sobre castigos duros e recompensas duvidosas. De um lado a Rainha Má é punida com tortura, ela recebe um par sapatos de ferro em brasa para queimar os seus pés e fazer ela dançar até a morte, do outro Branca de Neve é recompensada com um casamento com um desconhecido cuja recomendação é pertencer a alguma família real e ter um título nobiliárquico abaixo do dela, sendo única herdeira do trono com a morte do seu pai ela será Rainha.

Em versões anteriores a dos irmãos Grimm a maldade e a inveja vem da mãe da menina e existem dezenas de versões contemporâneas nas quais todas as partes dessa história são reviradas pelo avesso e tudo é questionado, reavaliado e reescrito. Porém essas são outras histórias e tema para outros posts.


A edição de "Branca de Neve" de Jabob e Wilhelm Grimm adaptada por Laurence Bourguignon e ilustrada por Quentin Gréban faz parte do Programa Nacional da Biblioteca Escola de 2014, ele deve integrar o acervo das escolas e creches publicas de todo Brasil, eu peguei emprestado da creche na qual trabalho. A leitura dele é indicada para crianças entre 6 e 10 anos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Livro das 1001 Noites - Ramo Sírio


"As aventuras de Simbad, o Marujo" é uma das histórias mais importantes da minha vida, conheci esse conto durante a infância, li e reli várias vezes, mesmo agora ainda quero ser Sidbad. Quando descobri que ele pertencia as narrativas das "1001 Noites" quis ler tais narrativas e procurei por elas bibliotecas a dentro, mas só em meado de 2005 vi o professor Mamede Mustafa Jarouche tinha traduzido o "Livro das 1001 Noites" do árabe para o português e descobri em qual fonte buscar minha satisfação leitora.

Infelizmente, em 2005 eu tinha 16 anos e nenhuma renda. Só me restou esperar o grande dia no qual eu poderia ter esse bendito livro. E eu esperei, e o tempo passou, foram e vieram prioridades até que o belo dia no qual em meio a andanças virtuais, encontrei com o box da Biblioteca Azul e, com uma enorme dose de delírio, comprei o danado.

Meus sentimentos quando o livro chegou nas minhas mãos são como o que Clarice Lispector escreveu no conto "Felicidade Clandestina" sobre a sensação de finalmente conseguir ter o livro "Reinações de Narizinho".

Desde sua chegada as minhas mãos tenho lido o livro vagarosamente, me deixando ficar com ele no colo, elaborando rituais para prolongar o prazer, deixando ele pousado na estante como se eu nem soubesse da existência dele ali. Ler esse livro é uma experiencia de felicidade com poucos precedentes.


No "Livro das 1001 Noites" conta-se a história de um Rei que após ser traído por sua esposa se desilude com todas as mulheres e em um ato de vingança decide todos as noites casar com uma mulher e mata-la ao amanhecer. A matança se espalha pelo reino e o terror passa a varrer todas as casas até o momento no qual a filha do vizir, Sahrazad, "conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada", decide acabar com a matança usando um estratagema chamado de "contação de histórias".

Contando com o apoio da irmã mais nova ela começa a contar uma história capaz de cativar a atenção e a curiosidade do Rei até o ponto no qual o Sol nasce e a história fica incompleta. Para ouvir a continuação O Rei preserva a vida da narradora que vai continuar usando a estratégia noite após noite adiando sua morte dia após dia.

Com seu conhecimento e astucia, a jovem salva a si e também a outras, pois enquanto ela não é assassinada ninguém mais é. As histórias são usadas para afastar o terror da morte de todas as mulheres do reino, elas preservam a vida de todas e ao longo do tempo tratam curar o rancor do homem traído enquanto divertem e instigam sua alma a alçar novos voos.

Em um contexto assim, ler as fábulas de Sahrazad é simplesmente um deleite. A maior parte delas não tem propositalmente nenhum teor didático, moralizante ou um padronizado. O livro é um conjunto de todos os tipos de gêneros possíveis e imagináveis: romance policial, sátira, poesias e poemas, romance, aventura, fábulas, histórias picantes e até religiosas costuradas em labirintos e teias intricadas e instigantes de se acompanhar.

A box da Biblioteca Azul é um espetáculo para quem ama a leitura, a História e tem paixão por linguística. Nele nós encontramos o prefácio do professor Mustafa Jarouche no qual ele nos conta a história do "Livro das Mil e Uma Noites" cujo fragmento mais antigo data de 879 d. C. e é originário do Iraque. Nem sempre o conteúdo do livro correspondeu exatamente ao número de noites, só por volta do século XVIII escribas egípcios conseguiram chegar as 1001 adicionando, ao sabor de seu próprio gosto, várias histórias em circulação no mundo árabe.

Existem dois ramos do livro, o Ramo Sírio, no qual não se completa as 1001 noites e o Ramo Egípcio, esse sim com um titulo condizendo com o conteúdo. O box da Biblioteca Azul contém o Ramo Sírio, nos vol. 1 e 2; e Egípcio, nos vol. 3 e 4. Eu terminei de ler o vol. 1 do Ramo Sírio e a leitura foi uma viagem incrível pontuada com magia, malicia, encantamento e muita história com H maiúsculo pois dialogando com fantasia nesses livros estão registrados muitos dados sobre vários aspectos da cultura dos povos do mundo árabe.

As histórias da Sahrazad revelam um Mundo Árabe amplo; tecnologicamente desenvolvido, em comparação com a Europa da época; geograficamente e economicamente conectado com vários povos através de rotas comerciais, Bagdá, Cairo e até a China são destinos pelos quais os personagens circulam; com uma diversidade étnica e religiosa surpreendente, persas, cristãos, judeus e muçulmanos convivem e dialogam de diversas formas.

O Ramo Sírio do "Livro das 1001 Noites" é composto por manuscritos copiados entre o século XIV e XVIII nas terras árabe-asiáticas hoje conhecidas como Líbano, Síria e Palestina. Nele nos é dado a saber sobre um mundo feito de grandes cidades, transações comerciais, mulheres com inteligencia aguçada, homens cuja sorte se define por saberem fazer um doce de damasco inconfundível.

Sahrazad emerge do texto como uma narradora de conhecimento e sabedoria impar, incomoda muito o quanto a figura dela foi sensualizada ao longo do tempo. Surpreende muito como essa sensualidade NADA tem a ver com o texto contido no "Livro das 1001 Noites", em nenhum momento os aspectos físicos da personagem são descrito. A mais famosa contadora de histórias da especie humana é descrita da seguinte forma:
"Sahrazad, a mais velha, tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e aprendido." (pg. 49)
Outra coisa incomoda tem sido percebe o quanto a maior parte das histórias da 1001 noites popularizadas no ocidente são protagonizadas por homens, enquanto no livro é possível encontrar histórias protagonizadas por personagens de ambos os gêneros.

Aliás, voltando no tópico sensualidade, por incrível que pareça, apesar de para muita gente noites árabe evocarem sensualidade, as mulheres cujas histórias são contadas não estão presas em haréns ou derivativos.

As mulheres cujas histórias Sahrazad trás a tona são criaturas urbanas de diversas classes sociais e ocupações. Em suas narrativas existem princesas e plebeias; livres e servas; humanas e djins; solteiras, casadas e viúvas. Espalhadas casas, mercados e becos em cidades efervescentes, elas circulam, se ocupam, vendem, compram bens e serviços enquanto se movem para uma aventura ou tem uma aventura sendo movida em torno delas.

Nas histórias feitas para entreter a fúria do Rei, mulheres tramam e se prendem em tramas ao sabor da necessidade e situação, dificilmente usam recursos sensuais e, em posição oposta a de quem conta tudo, não possuem grilhões prendendo suas mãos e pés.

Com sua protagonista genial, no verdadeiro sentido da palavra, O livro das mil e uma noites segue ampliando seu espaço em meu coração, fixando raízes e me deixando mais e mais apaixonada por seu conteúdo. Facilmente ele entra na lista dos 10 melhores livros da vida. E, só para constar, quando eu terminar de ler o vol. 2 do Ramo Sírio volto a falar sobre ele.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

AohaRaido: A Primavera de nossas vidas


"AohaRaido" ou "Ao Haru Ride" é uma série de mangás em 13 volumes. Io Sakisaka é a autora e no Brasil quem publicou foi a Panini com o selo Planet Manga. Através dos 13 volumes acompanhamos a história de como a garota Futaba Yoshioka e o garoto Kou Mabuchi enfrentam os desafios e delicias de atravessar a adolescência lindando com traumas familiares, vida escolar, amor e amizade.

Em linhas gerais é um shoujo bem comum e sem muitas novidades. Há um grande destaque para o romance entre o Kou e a Futaba e as idas e vindas do casal. Os dois se conhecem na escola durante o finalzinho das suas infância e se separam quando o Kou muda de cidade. Quando eles voltam a conviver são pessoas diferentes com cargas emocionais diferentes, porém ainda nutrem sentimentos um pelo outro. A Futaba dialoga melhor com seu sentimento e abraça o amor que sente, o Kou é mais resistente e as vezes irritante. Não foram poucos os momentos nos quais eu detestei o Kou e torci para que a Futaba encontrasse outro amor.


Para melhor temperar a história, além do casal de protagonistas a Io Sakisaka montou um elenco de coadjuvantes bem legal. Yuuri Makita e Shuuko Murau, amigas de Futaba são personagens decididas e leais cuja amizade se torna uma fonte de apoio emocional tanto para o romance quanto para outros aspectos da vida da protagonista. Do lado de Kou, o Aya Kominato muitas vezes arrebatou minha simpatia mais que o protagonista.


Em linhas gerais, Io Sakisaka fala a aventura de ser jovem, de viver o primeiro amor e de está entre amigos. Publicado bimestralmente AohaRaido se tornou um companheiro durante dois anos e dois meses e pela constância em minha vida, de alguma forma, se tornou um amigo. Entre altos e baixos, enquanto eu oscilava entre torcer pelo Kou e ter vontade de matar ele, vivi momentos importantes e reviravoltas em minha história.

Acompanhei a história do Kou e da Futaba volume a volume, me vi periodicamente parando minha vida para acompanhar as idas e vindas desses dois e assim eles se tornaram uma coisa constante enquanto tantas outras se tornaram inconstantes. Afinal, várias coisas podem mudar na vida de uma pessoa em dois anos.

Eu, por exemplo,
  • Fui demitida de um emprego;
  • Adquirir um novo emprego;
  • Passei em concurso público para professora e finalmente fui convocada;
  • Aprendi o básico da natação;
  • Conquistei mais de uma dezena de parcerias em um blog literário de sucesso;
  • Sai desse blog literário no auge de seu sucesso;
  • Viajei para outro estado e voltei para casa esvaziada de algo importante;
  • Sai da faixa dos 20, entrei na dos 30 e tenho 31 anos agora;
  • Adquiri alguns livros com os quais sonhei por anos, inclusive o box do "Livro das Mil e Uma Noites" com a primeira tradução para o português feita diretamente do árabe;
  • Vi uma das relações afetivas mais intensas e intimas que construí ruir como um castelo de cartas;
  • Perdi um dos meus irmãos;
  • Ainda não aprendi a lidar com a perda, mas continuo vivendo.
Ler os 13 volumes foi uma pequena jornada maravilhosa. Completar essa coleção me deu uma sensação agridoce. Por um lado há a emoção de chegar ao fim e do dever cumprido por outro não há mais um volume a esperar e fica um vazio emocional. Talvez por isso, nesse momento, quando estou prestes a me lançar em uma nova aventura profissional, vim aqui escrever sobre ele. AohaRaido foi uma pequena ancora para meu barco, já sinto saudades.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Não há palavras para tudo... [Citação 013]

"Não é verdade que há palavras para tudo. Também não é verdade que sempre se pensa em palavras. Até hoje há muitas coisas que não penso em palavras, não as encontrei, não no alemão do vilarejo, não no alemão citadinho, não no romeno, não no alemão oriental ou ocidental. E em nenhum livro. Os meandros interiores não coincidem com a linguagem, eles nos levam a lugares onde as palavras não podem permanecer. Muitas vezes é o decisivo, sobre o que não se pode dizer mais nada, e o impulso de falar a respeito é bem-sucedido porque ele passa ao longe. A crença de que falar destrincha os emaranhados só conheço do ocidente. Falar não concerta nem a vida no milharal e nem aquela sobre o asfalto. Também só conheço do ocidente a crença de que não se pode suportar o que não tem sentido." (Herta Müller)
A citação acima foi tirada do ensaio "Em cada língua estão fincados outros olhos" contido no livro "O rei se inclina e mata" da autora romena Herta Müller.


Particularmente acredito no poder das palavras e na capacidade que elas possuem de nos ajudarem a digerir a vida, mas lendo as palavras da Herta não posso deixar de concordar, refletir e reajustar minha percepção do mundo e das possibilidades da linguagem verbal.

Existem sentimentos inominados, situações indescritíveis, camadas de realidade sobre as quais dificilmente é possível palavras contar. Há ocasiões nas quais as palavras caem como pedras de um barranco e a alegria e a dor se tornam indizíveis. Não por acaso existem coisas comunicadas com o olhar, o abraço, o sorriso, o choro e mesmo com o silêncio.

Particularmente tenho dificuldades de lidar com o silêncio, a lacuna, a falta de palavras. Aceitar o indizível tem sido uma das aventuras da vida. Ainda estou aprendendo a compreender o não dito, as coisas só sentidas, o pressentimento, o incomodo, as sensações presas no ar, nas entrelinhas, nos espaços da comunicação e considera-las reais.

A parte isso, preciso ainda: para quem gosta de prosa poética, de encarar reflexões sobre a experiência de ser e estar nesse mundo a romena Herta Müller é uma excelente pedida. Sua escrita é muito influencia pela experiencia de viver sobre o peso da ditadura comunista na Romênia, então o sofrimento e trauma estão em pauta nos seus livros. Fugindo do formato dramalhão ela tende a aprofundar suas reflexões mais e mais e nos leva a ponderar sobre aspectos dolorosos da vida que tendem a passar despercebidos. 


Minha primeira experiencia a autora foi com o livro "O compromisso" e foi amor a primeira linha. Fiquei encantada como a forma como Herta contou a história de uma mulher comum que tem o compromisso de prestar depoimento a policia secreta. Ela sai as oito da manhã para um compromisso as 10 e durante o caminho nos conta de forma não linear a história da sua vida. Sou uma grande fã de conversas em ônibus e coisas do tipo, lendo o livro me sentir em uma conversa dessas. Fiz até resenha para o livro, quem quiser conferir deixo o LINK.


Uma das minhas metas de vida é ler o máximo possível de Herta Müller. Ela é uma autora a ser desbravada mais e mais.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Solar: História de Origem [HQs]


Um das minhas paixões literárias mais brilhantes é a tal da História em Quadrinhos, desde criança tenho vontade de ter uma coleção gigante de HQs, mas preciso confessar: nos meus sonhos a coleção era feita de mangás. Só nos últimos anos comecei a olhar com afeto para o formato ocidental e passei a colecionar Graphics Novel, Marvel, DC e os autores nacionais.

Nesse contexto, minha vida com HQs tem sido uma aventura, um processo de descoberta no qual "Solar: História de Origem" ganhou um lugar especial e aconchegante. Nele somos apresentados a um super heróis brasileiro com direito a super poderes dialogando diretamente com os universos Marvel e DC, porém sem ligações diretas com ele.

Gabriel, protagonista da trama, filho de uma antropóloga com um xamã de uma das muitas tribos sobreviventes da Amazônia, um belo dia ele se ver visitando um sitio arqueológico e tem sua atenção cativada por algumas das pinturas rupestres. Com a força de um imã a pintura o convida ao toque, ele não resiste e tem um momento único, um tipo de despertar, algo que atordoa, queima e liberta algo dentro dele. Após esse momento entre as pinturas rupestres a aventura de Gabriel começa.

Claro, como um bom primeiro volume, a história precisa ser apresentada, o herói precisa descobrir seus poderes, encontrar um assistente, salvar pessoas e ter alguma revelação sobre seu passado. Tudo isso acontecer em "Solar: História de Origem" e deixa o leitor extremamente entusiasmado com a leitura. Wellington Srbek, Abel Vasconcelos e Cleber Campos tiveram o cuidado de retratar na arte a diversidade étnica do povo brasileiro, das cidades brasileiras e seus problemas de urbanidade.

 Foi uma delícia descobrir esse herói brasileiro! Recomendo muito!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Peter Pan de J. M. Barrie [Literatura Infantil]

  
Se eu tivesse me auto-desafiado a ler e resenhar clássicos da literatura infantil e contos de fadas em 2017, não estaria lendo e resenhando com tanta frequência esses gênero. Como não me auto-desafiei, aqui estou para comentar mais um clássico da literatura infantil.

Ou, talvez, essa volta ao mundo literário da infância tenha a ver com a incrível sensação de vazio na qual me sentir envolvida, as vezes ainda me sinto, há algum tempo atrás. De muitas formas literatura infantil quando bem feita tem qualquer coisa pronta a abraçar; acolher; levar em conta o fantástico, o misterioso, o inexplicável; e, mesmo dentro de uma enorme complexidade, a literatura infantil é simples, simplicidade nesses momento é tudo.


A primeira sensação que tive lendo J. M. Barrie foi de uma profunda nostalgia da infância, existe qualquer coisa em nós que não sobrevive a infância. Esse sentimento foi intensificado ainda mais pela experiencia de ler a história em uma edição completamente ilustrada por Eric Kincaid.

Amo edições de bolso, são charmosas, cabem na bolsa e na palma da mão, mas nada produz uma imersão tão grande no mundo infantil e nas memórias de infância quanto ler um livro infantil em formato de livro infantil. Ler livros assim fazem o tempo voltar, me senti com nove anos de novo, senti saudades das minhas edições há muito desaparecidas de Simbad e Ivanhoé e da minha própria Terra do Nunca.


Quanto a história do Peter, apesar do quanto ela foi explorada pela mídia nas ultimas décadas é impressionante o quanto a narrativa de Sir James Matthew Barrie ainda tem a dizer.

Barrie conta a história de um menino em situação de rua, desamparado que vive com outras crianças em situação de rua e desamparadas na Terra do Nunca, um lugar no qual essas crianças são chamadas de "meninos perdidos" e não crescem. Toda aventura narrada no livro começa quando quando Peter rouba Wendy e seus irmãos do conforto do seu quarto as vésperas do Natal e os levar voando para essa terra de maravilhas e aventuras.

Confesso que várias vezes me peguei pensando se a aventura dessas crianças se deu em um mundo a parte ou se eles simplesmente vagaram pelas ruas de Londres e a imaginação infantil fez o trabalho de transformar a realidade em magia.


Quando Peter explica a Wendy sobre a origem dos meninos perdidos foi impossível não lembra do "Capitães de Areia" de Jorge Amado e daquelas crianças em situação de rua vivendo a aventura de existir a margem pelas ruas, becos, vielas e praia de Salvador. É desalentador pensar em crianças perdidas, se unindo para sobreviver, usando dos recursos da infância para enfrentar piratas e perigos.
"São os meninos que caem dos carrinhos quando as babás não estão olhando. Se não forem reclamados em sete dias, são mandados para longe, para a Terra do Nunca. Sou o chefe deles."
Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar. O Capitão Gancho as vezes parece uma vitima e os piratas são homens para lá de desamparados, mas eu me pergunto, o que se pode esperar de uma pessoa a quem até o prazer de ouvir uma história é negado?

As "crianças perdidas" não contam com nenhum adulto para cuidar delas, vivem escondidas, a margem da sociedade em mundo cheio de possibilidades para aventuras, porém no qual é possível se passar inclusive fome. É verdade que existe Sininho, a fada mais ciumenta do multiverso, que é adulta e vive com as crianças, porém ela não assume o papel de cuidadora em momento algum.

E sobre ausência de adultos, é mentira dizer que na "Terra do Nunca" eles não existem. As sereias, os indígenas e os piratas são adultos, porém estão ocupados demais vivendo suas vidas e cuidando de suas próprias crias, para se ocuparem daquele bando de "pestinhas". E nesse ponto lembrei do Chaves do Roberto Gómez Bolaños vivendo em um barril, eternamente faminto, constantemente humilhado pelas crianças da vizinhança e tolerado pelos adultos por não ser violento. 


Ninguém humilha Peter e as crianças perdidas, pois elas são violentas, agressivas e só obedecem suas próprias regras. Vez ou outra tem um ato de generosidade aqui e ali pelo qual são recompensadas e também são capazes de estabelecer alianças, mas sob ameaça elas sempre reagem com ferocidade.
"- Sabe, disse Peter - não conheço história alguma. Os meninos perdidos também não.
- Que coisa! disse Wendy.
- Você sabe, perguntou Peter - por que as andorinhas constroem ninhos no beiral das casas? É para ouvir as histórias que contam para as crianças, à noite..."

As crianças perdidas são livres, assustam quando exercem sua liberdade e comovem quando mostram o quão carente de mães são. Uma vez instalada na toca das crianças Wendy vira a mãe de todas elas e com amor maternal assume todas as funções de mãe como se brincasse de casinha. Não é a toa que com o tempo a melancolia toma conta da menina e o desejo de voltar para casa surje em seu horizonte, para ela a Terra do Nunca não é nada lúdica.

E sobre carência de mãe, também me comove ao extremo a carência dos piratas. Para mim, eles são os meninos perdidos que sobrevivem a infância e Peter Pan não é um nome próprio e sim o titulo dado ao chefe dos meninos perdidos, uma vez adulto ele vira o Capitão Gancho em um ciclo sem fim. E isso me lembra a vida das crianças em situação de rua.
"- Pan, perguntou ele - quem é você?- Sou a juventude, sou a felicidade, respondeu Peter. - Sou um passarinho que acabou de sair do ovo.Era um absurdo, claro, mas, para o infeliz Gancho, era prova de que Peter não sabia quem era."

No mais, Peter Pan é uma história cheia aventura, magia. Recheada com seres fantásticos, magica, sensibilidade e provocações. Mesmo agora muito se pode falar sobre ela, é um clássico em si, uma história feita para provocar que não duvida da capacidade de compreensão do leitor e o leva a pensar sobre a realidade. Estou apaixonada por essa história!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Princesas, Bruxas e uma Sardinha na Brasa [Literatura Infantil]


Sou apaixonada por contos de fadas, tanto por pura paixão literária quanto por todo potencial didático que o gênero contém em si. Além de seu potencial lúdico, sendo textos gostosos de se ler, também guardam em si muitos dos valores culturais das sociedades que os criaram e portanto são ótimos instrumentos para provocar debates e nos fazer pensar e repensar a vida.

Encontrar livros de contos de fadas não é algo difícil, autores e as editoras tem plena consciência do apelo desse gênero literário entre professores e crianças e não economizam nos lançamentos. Difícil mesmo é encontra livros nos quais os autores consigam equilibrar o caráter didático e lúdico do conto e construírem um texto tanto provocativo quanto bonito e divertido de ler. Não é um exercício tão fácil encontrar livros tão equilibrados quanto "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa".


Contando com Helena Gomes e Geni Souza no texto e Alexandre Camanho na arte, o livro possui oito histórias nas quais os personagens femininos ocupam lugares centrais como heroínas, vilãs, nem com uma coisa nem outra. De maneira inteligente as autoras revisitaram contos clássicos da literatura mundial, dialogaram com eles e criaram histórias nas quais o protagonismo feminino é explorado fugindo de esteriótipos ou até mesmo questionando eles.

Entre as histórias das autoras exploram as necessidades e buscas femininas - talvez até feministas - por educação escolar, letramento, liberdade, amizade e cumplicidade. Coisas que vão muito além de um casamento vantajoso com um príncipe com o qual se cruzou em um baile.


E se as autoras discutem o papel feminino na sociedade e dão voz aos nossos anseios, o Alexandre Camanho da cor e forma aos textos e se eu fiquei apaixonada pela arte dele em "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" agora eu cheguei no nível do amor. As ilustrações casam lindamente com o texto e fazem do livro uma coisa linda para se ter na estante.


"Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" é o volume 2 da coleção "Contos e Contadoras" lançada pela Editora Biruta na qual as autoras usam o gênero conto de fadas para discutir temas relevantes sobre a sociedade na qual vivemos. No vol. 1 "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" o tema foi ética, no vol. 2 foi o papel da mulher, o próximo, "Reis, moscas e um gole de morte" vai discuti sobre justiça e eu já estou ansiosa para conferir o resultado.

Se você ficou curiosa ou curioso com os livros e quiser da uma olhadinha na parte interna deles e nas primeiras páginas no site da Editora Biruta da para conferir as primeiras páginas do livros é só clicar AQUI para conferir "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" e AQUI para conferir "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné". A editora também tem uma lojinha vitual na qual a gente pode encontrar todos os livros por um bom preço.

domingo, 7 de maio de 2017

Monstro do Pântano: Raizes


Encontrei com o vol. 1 da HQ "Monstro do Pântano: Raízes" integrante da coleção "Clássicos DC" na banca onde costumo comprar mangás e por muito ter ouvido falar desse personagem resolvi aproveitar a oportunidade de conhecer as origens do personagem pessoalmente e adorei.

Fiquei fascinada com o roteiro de Len Wein, a arte de Bernie Wrightson e a forma como eles construíram seu personagem dialogando clássicos da literatura ligados ao terror. Nos dois volumes da coleção "Clássicos DC" que reúne os 13 primeiros volumes da "Mostro do Pântano" publicados originalmente na década de 1970.


A primeira aparição do Monstro do Pântano foi na revista "The House Of Secrets" na qual é contada a história do jovem cientista Alec Olsen que possui uma vida feliz com sua bela esposa até ser vitimado pela inveja de um amigo e então se transforma em um monstro. A história de como Olsen se transforma no monstro verde e musgoso é contada em oito páginas e jamais é retomada quando Len Wein e Bernie Wrightson decidem a pedido dos chefões da DC retomar a história ele elaboram um começo novo.


Na série imortalizada por filmes, séries de tv e derivativos, o protagonista é o doutor Alec Holland o qual se muda para um galpão em um pântano para junto com sua esposa Linda Holland pesquisar uma formula para fazer vida vegetal florescer nos lugares mais áridos do mundo. Quando os dois começam a ter sucesso em sua empreitada chamam a atenção de criminosos cujas astucias transformam o doutor no Monstro do Pântano e destroem a vida de sua esposa.


Transformado em uma forma de vida vegetal o doutor Alec Holland em um primeiro momento não consegue se comunicar com as pessoas e acaba sendo caçado por amigos e alvo de sequestro, tramoias maquiavélicas e hostilidades que o lançam em diversas aventuras.

Nessas aventuras ele será obrigado desbravar castelos medievais localizados nas montanhas elevadas dos Bálcãs, encontrar com monstros sintéticos dignos de botar medo no próprio Doutor Victor Frankenstein, lobisomens em charcos obscuros, bruxas injustiçadas, fantasmas de escravos vingativos, dinossauros, viajantes do tempo, extraterrestres e até mesmo o Batman.


No entanto, o Monstro do Pântano é dotado de força e inteligencia, ele é quase indestrutível então pouco a pouco vai superando seus inimigos e até alguns amigos pelo caminho.


Cativante, com pinta de socialmente excluído, fora do padrão branco, alto, olhos claros tipo Batman ou Superman, o Monstro do Pântano é herói com estética de vilão e não por acaso os amigos que ele encontra pelo caminho também são personagens historicamente marginais como bruxas injustiçadas ou fantasmas de homens negros vitimas da escravidão.

Agora me digam, como não amar um personagem assim? Acompanhei as 13 aventuras escritas pelo Len Wein gostando muito de tudo e larguei ele com pena, desejando um reencontro futuro com essa criatura atormentada pela alegria que perdeu e pela incerteza do futuro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sense8 - Primeira Temporada


Não sou uma pessoa muito afeita a assistir séries, fazer maratona vendo milhares de episódios por dia e coisas do gênero. Apesar de ter interesse em várias produções, raramente me pego vendo alguma coisa, hoje, até mesmo ver filmes é uma atividade rara para  mim. Quando alguém questiona o porquê de ter assinado um serviço como a Netflix geralmente eu respondo: tenho irmãos e enquanto eles vem coisas eu fico em paz para ler.

Apesar de minha atual aversão a séries e derivativos durante o feriado de Páscoa uma amiga comentou sobre Sense8 e, em um impulso de momento, decidi para e ir conferir a série. Em consequência desse impulso, fiquei encantada com a sensibilidade da produção, morri de amores pelos protagonistas e coadjuvantes, ainda estou sob os efeitos da história.


Sense8 conta o que ocorre com a vida de oito pessoas espalhadas pelos muitos cantos do mundo quando elas descobrem possuir uma conexão profunda entre si e são capazes de partilhar emoções, sentimentos, memórias, habilidades, consciência e até mesmo seus corpos uns com os outros. Na contramão do que o senso comum poderia supor, em vez de entrar em conflito um com o outro essas oito pessoas, apesar de serem diferentes mesmo, não tendem ao conflito, elas caminham para o entendimento e esse é um dos pontos altos da série.

A ligação entre os sense8 é uma ligação empática, todos partilham a mesma condição no mundo, apesar de diferenças de gênero, cor, sexualidade, profissão e credo pertencem a uma unica especie e procuram compreender, ajudar e proteger um ao outro em meio as mais diversas situações que surgem em suas vidas.


Há, é claro, toda uma trama com conspirações, segredos, perseguição e o perigo iminente de que alguém do grupo seja assassinado a qualquer momento. Porém esse não é fio que me prendeu a história e seus personagens. O que prende é o fato de ser um trabalho surpreendentemente sensível as sutilezas das relações humanas. O roteiro privilegia as contradições nas relações, os traumas, afetos, perdas e ganhos característicos da vida familiar, amorosa ou mesmo das relações entre amigos.

Os diálogos são incríveis, as considerações e histórias dos personagens são mostradas com uma sensibilidade capaz de desconstruir tabus corriqueiros, desmontar o senso comum e nos fazer olhar para o outro com mais ternura a ponto de perceber o quanto poderíamos ser próximos caso nos permitíssemos forjar com convivência uma ligação independente do quanto o outro é diferente da gente.

Fiquei encantada com a série, com o enredo, com os personagens, a trama e a trilha sonora que me abraçou durante os desfechos de cada arco narrativo ajudando a assentar os sentimentos fortes e conflitantes despertados pela história.


Nosso mundo nunca foi tão conectado, de muitas formas nos últimos 500 anos nossa especie na contramão de qualquer sonho de mundo de ficção cientifica investiu muito mais em comunicação do que em qualquer outra coisa e ainda assim nós nos desentendemos. Se a tecnologia nos conecta nossa falta de empatia com o outro nos separa em ondas intolerância religiosa, racismo, transfobia, homofobia, machismo e interesses econômicos postos acima de tudo e qualquer coisa.

Assistindo a série eu me pego pensando que entre os sense8 esses conflitos são dissolvidos pois como eles partilham tudo o que são entre si as incompreensões se diluem... Eles se escutam intimamente e de repente se percebem como partes diferentes de um organismo único, sendo oito se tornam um e vice versa muitas e muitas vezes ao longo dos episódios.

Me ocorreu muitas vezes enquanto via essa série que essa história estranha com ares de ficção cientifica oferece uma possibilidade complexa e ao mesmo tempo simples para a resolução daquilo que atormenta nossa especie: empatia, conexão, ouvi o outro. Olhando de perto somos semelhantes, olhando de perto o outro deixa de existir e se transforma em próximo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Citação 012 [Ícaro]

Ícaro do Recife. Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho na Praça 17 no centro do Recife.
"Ícaro! Não é que tenha esquecido de todos os nomes. Lembro-me de Ícaro. Voou próximo demais do sol. Entretanto, nas histórias, valeu a pena. Sempre vale a pena tentar mesmo quando falhamos, mesmo que você entre em eterna queda livre como um meteoro. Melhor ter ardido na escuridão, ter inspirado outros, ter vivido, do que ter ficado sentado nas trevas, amaldiçoando aqueles que tomaram emprestado sua vela e não a devolveram." (Neil Gaiman, em "O homem que esqueceu Ray Bradbury do livro "Alerta de Risco")
Quando Neil Gaiman resolve escrever para homenagear Ray Bradbury, o incrível autor de Fahrenheit 451 não podia da em nada menos que um daqueles textos incríveis de fazer chorar sozinha ou na companhia serena do gato.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Vazia...

Houve uma época na qual eu me sentia mais preenchida, então era mais fácil escrever. Agora me sinto meio vazia então é mais difícil simplesmente chegar e transformar ideias em palavras, frases, parágrafos inteiros.

As vezes também me ocorre de pensar sobre a correção das palavras, dos sinas, da pontuação, da concordância, coesão, coerência etc e isso me afasta mais ainda dos exercícios de escrita.

Sempre me embananei com pontuação, erres, esses, cedilhas e o escambau. Sempre fui de cometer erros de fazer rir e chorar, porém nunca antes minhas deficiência de escrita pesaram tanto. Nem mesmo quando eu escrevia páginas e páginas a mão nas provas imensas do curso de história.

Nessas provas era convidada a dissertar sobre isso e aquilo a luz desse e daquele autor e minha compactor 07 deslizava sobre o papel pautado com uma fúria deliciosa. Eu tinha confiança, amava aquelas provas imensas que demoravam quatro horas de relógio para serem construídas... Hoje me pergunto se seria capaz de fazer esse tipo de coisa e duvido seriosamente.

Eu também já fui amiga das cartas longas... muito longas... páginas e páginas... Nunca fui econômica com nada na vida então não via motivos para economizar palavras e escrevia e escrevia... Faz tanto tempo que não escrevo uma carta que já me causa vergonha. Faz nove meses que tento escrever uma carta para uma amiga e não consigo... escrevo uma página e jogo fora então recomeço... e recomeço... parece mentira, mas é verdade... já tive que comprar um caderno novo porque o esforço dessas reescritas levou um embora.

As vezes acho que perdi a segurança e a substancia... Ainda escrevo resenhas, mas só Deus sabe quanto trabalho cada paragrafo demanda... E o quanto olho as resenhas publicada sentindo que faltou algo e me perguntando o quanto o editor precisou intervir para o texto não ficar de dar vergonha alheia ou vergonha minha.

Eu tento me preencher das coisas aqui e ali, não perco chances de viver uma experiencia nova e quando ela surge vou lá viver... ver... andar... ler... provar... mas as vezes pareço um poço sem fundo. Nada me preenche completamente e o fluxo das palavras no papel, no blog, nos cadernos, nas cartas não anda e me sinto em divida e vazia...

Se isso for um tipo de fase, que fase difícil que é!

Digo a mim mesma "isso também passa", mas tenho dificuldades de me ouvir. Me pego, aliás, descobrindo fascinada o encanto de não ouvir minha própria voz... Uma sensação estranha para quem fala sozinha.

E sim, esse é um daqueles textos confusos que uma pessoa em sã consciência não publicaria, mas eu não mantenho um blog há tanto tempo para posar de pessoa com sã consciência.

Preciso desabafar! Estou desabafando, afinal o silêncio nunca me ajudou a tomar decisões e quebrar a banca. Sou do tipo que precisa gritar, nunca se sabe se alguém está passando pela beira do poço e de repente... sei lá o que pode ocorrer de repente... 

domingo, 26 de março de 2017

Jonas e o Circo Sem Lona


Por esses dias a Tina, que conheci através do Blog da Tina, me contou através das redes sociais a respeito do filme-documentário "Jonas e o Circo Sem Lona" em cartaz no Cinema São Luiz. Obviamente não me permitir perder a chance de ir e, como a experiencia foi significativa, também não me permito deixar de fazer um registro.

O documentário aborda como Jonas, um adolescente cuja família nasceu e cresceu no circo, porém decidiu deixar a lona e seguir outro rumo. Ele simplesmente não se adapta a essa vida sem circo, então, estimulado por seu desejo e apoiado pela avô, decide montar um circo no quintal de casa junto com seu grupo de amigos.


Ao longo do filme nós acompanhamos a experiencia mágica do Jonas de criar e administrar seu circo no quintal em meio ao banho de água fria do cotidiano vivenciado no subúrbio de uma grande cidade colonial.

Nos subúrbios as mães conscienciosas como a do nosso garoto sabem que crianças não podem ser entregues unicamente ao luxo de viver seus sonhos, elas precisam bem cedo encarar as realidades da vida, como por exemplo a necessidade urgente de obter o máximo de educação escolar possível. Toda a rotina vivenciada pelo menino e sua família me foi muito familiar, eu me senti em casa na verdade.


É comovente acompanhar a luta da mãe do garoto para prover sua família e manter Jonas na escola regular. Ela parece está constantemente nadando contra a maré dos desejos dela e dele, mas permanece firme na direção que considera a melhor possível para ele.


É desamparador perceber o quão infeliz o menino é na escola que não desperta nele interesse algum. A educação escolar para ele é um grande blá blá blá sem utilidade muito clara e, naturalmente, ele vira as costas para a escola. Aliás, acho compreensível uma criança/adolescente não compreender a importância da escola ou o quanto ter acesso a ela é um direito duramente conquistado e não uma imposição difícil de suportar. Porém, é muito irritante ver educadores não compreenderem a importância de crianças como Jonas para a escola e simplesmente optarem por carimbar ele com um "não é exemplo para ser seguido".

É muito forte o momento no qual uma das educadoras da escola convida a cineasta para ter uma conversa sobre o Jonas. É triste como o menino por não ter interesse pelos conteúdos escolares é desqualificado por ela. Também acho pesado sobrecarregar adolescente ou crianças com bom desempenho escolar como "exemplos a serem seguidos".

Sempre penso que a crianças e adolescentes deviam ter liberdade para SER e PONTO. Unicamente SER já devia bastar e Jonas É. Só isso já faz dele um personagem e tanto.

O filme está em cartaz até 29 de março nas principais capitais!