segunda-feira, 14 de março de 2016

Hamlet: príncipe da Dinamarca

Era uma vez uma pessoa mergulhada em um momento de total bad vibe. Ai, passeando pela floresta do alheamento ela decide fazer algo? Mas, o que seria esse algo?

Passear no parque?
Assisti uma comédia no cinema?
Ir a praia com as amigas?
Nãooooooooooooooooooooooo! Nada disso! Isso tudo não convém!
Ela vai ler uma das tragédias mais famosas dos últimos cinco séculos!


Falando sério, meu desejo de ler "Hamlet: príncipe da Dinamarca" não é recente. Essa edição chegou até mim em 2011 através de uma brincadeira de troca-troca de livros entre blogueiros e quando eu o o Alexandre do #DoQueEuLeio começamos a falar sobre ler algo de Shakespeare foi só unir a sede a vontade de beber.

Apesar de ser uma tragédia, não achei o texto pesado e o final é tão demasiadamente trágico que chega a ser cômico. Varias vezes me coloquei no lugar de uma plateia do século XVI olhando o desenrolar dessa trama e pensando em escanda-los públicos e escondidos das famílias reais europeias e rindo sozinha de mim para mim mesma no meio dos monólogos angustiados e delirantes do Príncipe Hamlet.

Como o titulo do livro anuncia em "Hamlet: príncipe da Dinamarca", Shakespeare nos conta a história de um príncipe melancólico divido a perda precoce do pai que vê sua mãe desposa seu tio sem nem mesmo ter passado o período do luto. Como se sua melancolia revoltada não fosse suficiente o fantasma de seu pai lhe aparece anunciando uma traição e clamando por vingança.


Como disse Horácio, amigo do Hamlet: "Não sei, mas há algo de pobre no Reino da Dinamarca." (p. 26) e para Hamlet cabe a ele colocar essa podridão em evidência e encontrar para ela um vingança digna de um rei cuja coroa foi indignamente usurpada. Para tanto nosso herói usa o artificio de "da uma de louco", o problema é que chegar a conclusão de que "um homem pode sorrir, sorrir e ser um celerado" não fez nenhum bem a ele. Sua loucura fictícia conduz ele a loucuras concretas, macula o amor dele pela jovem Ofélia intoxicando-a com uma loucura real, constrói uma trilha de sangue e, como o gênero da peça anuncia, tragédia.

Apesar do fim arrasador e de realmente ter tido trabalho com a tradução rebuscada de Mario Fondelli e formatação do texto da coleção "Clássico Econômicos Newton" eu adorei a leitura. Furiosamente anotei várias citações das perolas sobre comportamento, sociedade, cultura e politica que se espalham sobre o texto de shakespeariano.

Muitas vezes me peguei pensando o quanto foi capcioso escrever, produzir e encenar em um mundo no qual os reis reinavam por “direito divino” uma história na qual a família real era uma verdadeira celerada, fadada ao fracasso por manchas de envenenamento, incesto e traições. Se, nas palavras do próprio autor "um pingo de mal contamina a substancia mais pura" (p. 25), imagine essa quantidade gigantesca de maledicências e crueldades em uma família que advogava para si o titulo de sagrada?

E sim, o autor conhecia muito bem o poder dos atores, como eles influenciam a opinião publica e podem ajudar ou prejudicar caso queiram ou precisem. O próprio Hamlet afirmou: "... os atores são como que o compendio e a crônica do nosso tempo e mais vale que vós tenhais um epitáfio ruim depois de morto do que serdes por eles escarnecidos em vida." (p. 45). Essa passagem é quase uma ameaça, não por acaso os políticos brasileiros proíbem os humoristas de zuar com eles em época de eleição na TV aberta.

Em síntese, não é sem motivos a popularidade da obra de Shakespeare e os muitos estudos sobre ela. Trata-se de um texto rico, com potencial para a reflexão e, mesmo na pior tragédia, com uma dose de comédia. Afinal como não ri diante do dialogo dos coveiros ou do espetáculo de ver um fidalgo e um príncipe se engalfinhando em cima de um caixão diante do Rei e da Rainha?

Apesar da dificuldade com a tradução e a formatação do texto, gostei muito da experiencia de ler Shekespeare. Quero ler muito mais dele, aliás, quero ler TUDO dele.

Ah, "Hamlet: príncipe da Dinamarca contem o monologo mais famoso de todos os tempos, o qual senti necessidade existencial de transcrever por sua genialidade e impacto reflexivo.
"Ser ou não ser... Eis o problema. Será mais nobre suportar as pedradas e as flechadas de uma fortuna cruel, ou pegar em armas contra um mundo de sofrimentos e, resistindo, acabar com eles? Morrer, dormir, nada mais, e com o sono dizer que demos cabo da aflição no coração e das demais enfermidades naturais da carne: consumpção a ser desejada como graça. Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, talvez, é este o ponto que nos detém, é a duvida que prolonga por tão largo tempo a vida dos infelizes. Pois quem quereria suportar o chicote e as injúrias do tempo, as injustiças do tirano, as afrontas do orgulhoso, as torturas do amor não correspondido, as demoras da justiça, as insolências do poderoso, os pontapés que o mérito paciente recebe dos indignos, quando ele mesmo poderia alcançar a paz com a mera ajuda da ponta de um punhal? Quem quereria suar e praguejar sob o fardo de uma vida ingrata, não fosse pelo receio das terras incógnitas do além, país do qual ninguém jamais voltou? Eis o que estorva a vontade e nos decide a suportar os males que sofremos, com medo de enfrentarmos outros que não conhecemos. Eis por que as cores vivas da resolução desmaiam no clarão indefinido do pensamento e os projetos de grande alcance e momento perdem o rumo, voltando ao atoleiro da imaginação. Mas... silêncio! Agora a bela Ofélia se aproxima - Ninfa, lembra-te dos meus pecados nas tuas orações." (Shakespeare, "Hamlet: o príncipe da Dinamarca, pg. 48).

6 comentários:

  1. Ficou na cara que você adorou ler ele, não foi Jaci? hahaha Por motivos maiores, tive que adiar um pouco a minha leitura de Hamlet, mas do que li, posso dizer que Shakespeare não é de difícil leitura como eu pensava antes de ler Romeu e Julieta, apesar de ele carregar em suas peças críticas, e sarcasmos, os diálogos são leves. Eu recomendo que todos um dia leiam algo do dramaturgo inglês, e de preferencia nas traduções da L&PM, que me parecem muito boas.
    Abraços!
    Alexandre do blog Do Que Eu Leio
    @_alexandremelo

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  2. Li o meu primeiro Shakespeare ano passado justamento o Hamlet e adorei. Tinha um medo horrível de ler Shakespeare! Achando que não iria entender nada, que era uma leitura dificil, pesada, truncada... Nada, super gostoso de ler e fácil. E também achei super cômico Hamlet. Também quero ler outros dele.
    Beijos
    Adriana

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  3. Depois de seus comentários, vou me arriscar a ler, Jaci!
    Tenho o livro há muito tempo, mas não me aventurei, para não pesar!
    Chega uma hora que precisamos enfrentar nossos dramas, lendo outros...
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  4. Olá!!

    Que ótima resenha. Já tentei ler Shakespeare uma vez e acabei não conseguindo justamente pelos seus títulos serem no formato de peça de teatro ao invés de prosa...

    Era para eu ter avisado antes, mas estou voltando a ativa... ^^

    Até

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  5. Taí um livro que nunca li, mas morro de vontade...
    Talvez eu não goste muito do ritmo da narrativa, ou não...
    Sei lá...

    Adorei a resenha!!!

    Um beijo!!!

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  6. vale muita apena fazer um esforço para ler pelo menos 1 livro por ano e ir ao cinema para assistir um bom filme, tudo isso é cultura. tem que levar como uma meta para conseguir.

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