domingo, 21 de junho de 2015

Volume 1 de "Os miseráveis": Fantine

Honestamente, preferia não comentar "Os miseráveis". Apenas o exercício de ler o livro em si já é doloroso, escrever então é sofrível. Chego a me contorcer contemplando a página em branco, maaaasss faz parte das regras do jogo, ou do "Projeto Victor Hugo" escrever sobre a leitura e cá estou eu. O livro é dividido em 5 volumes, os quais são: Volume I: Fantine; Volume II: Cosette; Volume III: Marius; Volume IV: Idílio da Rua Plumet e epopeia da Rua Saint-Denis; Volume V: Jean Valjean. Como o titulo do post anuncia, aqui vou falar sobre o vol. 1 "Fantine".

Segundo consta Victor Hugo levou 40 anos para escrever esse livro e se ele escreveu sem pressa é melhor ler sem pressa também. Como o livro já tem lá seus 153 anos é fato publico e notório ser a trajetória de Jean Valjean o coração da obra e senti uma enorme ansiedade pelo encontro com ele, porém minha ansiedade foi devidamente trabalhada, para não dizer martirizada, pisada, oprimida e assassinada, até o ponto de definhar e morrer.

Antes de conhecer Jean Valjean, somos apresentadas ao Bispo Myriel, Dom Bienvenu. Cristão consciencioso, ele é capaz de transforma a confortável casa paroquial em hospital, doar a maior parte de sua renda para os pobres, jamais fechar a porta da sua casa, viver unicamente para servir e servir para viver. Fica claro o porquê desse homem ser capaz de abrigar Jean Valjean, então um "mal elemento" recém saído de um carcere de 19 anos anos, com tendencia a violência, ares de louco, fedegoso e desesperado.

Assim como a trajetória do Bispo Myriel, a vida de Jean Valjean é descrita longa e detalhadamente. Nenhum ponto é ignorado: sua vida dura como irmão de uma mulher com muitos filhos e nenhum marido, o fatídico episódio do roubo de um misero pão, o castigo desproporcional e desumano como trabalhador forçado galés por 19 longos anos, as fugas, a dolorosa consciência de ser vitima de injustiças, a construção da brutalidade no coração daquele homem e transformação que ocorreu após o seu encontro com o Bienvenu.

Amo a Fantine da Anne Hathaway 
Só depois de vislumbrar a vida desses dois sujeitos, e o seu encontro, nos é dado a conhecer a trajetória da moça Fantine.  Um moça órfã, de origem desconhecida, que se envolve com um mauricinho rico e prepotente e herda dessa relação uma filha sem pai. Mãe conscienciosa, ela faz todo tipo de esforço possível e imaginável para manter essa filha... quando não tem mais o que vender para manter a menina Fantine vende a si e encontra a degradação... É no meio da degradação assim como Jean Valjean encontrou a benevolência do Bispo Myriel ela vai encontrar a dele.

Uma velha máxima diz: "Todos possuem uma história.", tal máxima parece que a força motriz de Victor Hugo ao escrever. Em sua narrativa nenhum caráter fica descoberto ou descrito superficialmente, todos os personagens a entrar na história tem sua trajetória contada em detalhes. Não há pontas soltas ou detalhes não revelados. Os pobres, os ricos, os oprimidos, os opressores... as misérias humanas são exploradas enquanto os miseráveis levam suas vidas até o seu limite.

Não canso de contemplar absurdada a atualidade dessa história, como em 153 anos o Ocidente caminhou tão pouco na direção da diminuição das desigualdades sociais, da miséria humana, da fragilidade da infância, da hipocrisia dos que possuem muito.

A miséria humana denunciada no século XIX é atual no século XXI.

E no Brasil a comissão Câmara dos Deputados que discute a maioridade penal aprovou no ultimo dia 17 o relatório do deputado Laerte Bessa (PR-DF) que reduz de 18 para 16 anos a idade penal para os crimes considerados graves.

Por favor me belisquem, me acordem, eu estou tendo um pesadelo terrível. O "momento presente" é uma distopia, o texto escrito por Victor Hugo continua sendo necessário e eu gostaria que não fosse.
"Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiro infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos, enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorancia e miséria, livros como este não serão inúteis." (Victor Hugo, Hauteville-House, 1862).

Esse texto pertence ao "Projeto Victor Hugo"


9 comentários:

  1. eu estou com o livro aqui. uma hora vou ler. deve ser maravilhoso. beijos, pedrita

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  2. Meu Deus! Que visão interessante a tua! Concordo contigo, esse livro é do século XIX, mas é extremamente atual... é triste ver como essas mazelas da humanidade ainda continuam fortes e presentes na sociedade. Em relação ao texto, como eu disse, eu achei fabuloso do Victor essa minúcia em descrever as vidas dos personagens, ele consegue fazer isso com maestria e sem deixar o texto chato ou enfadonho. É se tivéssemos acompanhado suas trajetórias de corpo presente, sua narrativa mistura-se a nossas lembranças inexistentes, quase como se fossem reais. Meu Deus! Que livro é esse? No momento estou atolado em Waterloo... kkkk de toda forma valerá muito a pena a leitura dessas quase 2 mil páginas.
    Abraços querida amiga!

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  3. É um dos livros que me conquistou. Primeiro li uma versão resumida, então achei o filme e por fim uma versão completa. E toda vez que releio ou revejo a obra a família que cuida primeiro da Cosette me parece cada vez mais uma caricatura do brasileiro esperto. Tão parecido com nossos políticos. Tão erradamente esperta, tão trapaceira, tão amoral quanto nosso povo é. A redução da maior idade penal é um ato politico para angariar votos. Ele nada resolve e nada muda. Dá uma falsa sensação que os políticos estão fazendo algo. Vão ganhar votos e nada irá mudar.

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    1. Assino em baixo "Asas Negras". Aliás, você tem blog? Tentei acessa através de sua conta, mas seu perfil não é publico. Se tiver deixa o link para que eu posso conhecer teu espaço.

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  4. Nossa que coisas que prende a atenção >< kkk
    ja estou seguindo
    hlanjens.blogspot.com.br

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  5. Eu sei que vc discorda 9 e não quero levantar polêmicas rs), mas quando digo que clássico é "atemporal" é por isso! Pelo fato de ainda ser muito atual! Eu sempre adoro ler seu ponto de vista sobre qualquer coisa Pandinha é sempre enriquecedor!

    parabéns por seguir no projeto!

    Bjs, Mi

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  6. Deixo aqui minha admiração e uma xícara de café para você prosseguir nesse projeto! Por ora não passo nem perto!
    Li só uma adaptação escolar e sim deve mesmo ser fantástico o original, ainda mais quando se pode fazer tantas associações com a atualidade. Acho que os clássicos têm esse dom - ser atemporal.

    Vou aproveitar o comentário que deixou no meu blog e recomendar a leitura desse artigo - máquinas, robôs que sentem e os sentimentos dos humanos. Beijo!

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luliradfahrer/2015/06/1646350-canis-et-circensis.shtml

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  7. Victor Hugo era observador da vida, observador da natureza humana, acima de tudo, por isso pode dissertar com tantos detalhes o caráter de cada um dos personagens. Tal e qual, nessa época, o que mais impera é a hipocrisia, é o ganhar acima de qualquer coisa, não importando em quantas cabeças se vai pisar. Nada poderá melhorar, se os que estão vendo tudo isso acontecer, continuarem calados ou omissos. Na verdade, quem se cala ou se omite é o maior culpado, está sendo conivente com o mal, ou o crime praticado.
    É preciso muita coragem e desprendimento, para se lutar contra a gangrena, que está matando o "Estado".
    Muito boa colocação, obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  8. É sempre assustador quando vemos na nossa sociedade algo que um cara, do outro lado do oceano, descreveu cento e cinquenta anos atrás. Concordo com você, avançamos muito pouco, não há vontade política e as que existem são puramente eleitoreiras, então já viu, estamos condenados sem direito há muita esperança que não nos faça parecer muito românticos. Sobre a maioridade penal, eu sou a favor de uma punição mais severa para quem comete os crimes, mas não arrisco a dizer que reduzirá qualquer tipo de estatística ou coisa que o calha.

    Falado de Victor Hugo, tenho muita vontade de conhecê-lo, ler algo dele, e fiquei seriamente tentado a embarcar também na leitura de "Os Miseráveis", mas acho que vou me arriscar em algo não tão longo primeiro, e, além do mais, o Tio Martin tem me atraído cada vez mais pra suas crônicas de gelo e fogo.

    Eu gosto muito da forma como você trás suas leituras para os dias atuais, a gente sai satisfeito, dá gosto de ler ;)

    Dois abraços!

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