terça-feira, 1 de julho de 2014

Choque de realidade: sobre ser professor/professora.

Pessoas que escolhem a profissão docente de certa forma são como "os escravos cardíacos das estrelas" do poema "Tabacaria" de Fernando Pessoa:
"Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido."
Hoje meu semestre acabou, deixei as cadernetas preenchidas na escola, esvaziei meu arremedo de armário, peguei os itens mais queridos desse primeiro semestre de 2014.


Segui para minha rotina na educação infantil, cheguei em casa no inicio da noite, terminei de assistir o jogo "Bélgica X Estados Unidos" com meu pai e finalmente abrir o computador.... Foi quando fui esbofeteada por um choque de realidade em forma de matéria. Descobrir que um professor de história foi confundido com um ladrão, foi espancado, escapou de ser assassinado e ainda está respondendo a processo.

Cá está o link da matéria para quem quiser entender melhor a situação: "Professor ‘dá uma aula’ de Revolução Francesa para não ser linchado".

Uma vez eu disse a Suelem, minha estagiaria da educação infantil, em meio a uma crise de frustração docente, que pessoas capazes de escolher essa profissão mereciam levar uma pisa. Como ela não é de meias palavras, respondeu na lata:
"Mas vocês levam! Você leva uma surra todo dia Jaci!".
Ela chamou isso de "choque de realidade".

Nunca pensei que daria tanta razão a ela. Me sinto surrada agora, usando as palavras de meu irmão:
"Todos são inocentes ate que se prove o contrário. Mas isso só vale se você tiver muita grana ou for político corrupto. Pobre, preto, prostituta, professor e homossexual são culpados até que se prove a inocência, isso depois de muita humilhação." (José Rafael Jr.)

9 comentários:

  1. Indignação total!
    Eu sempre ouvi que a pessoa é inocente até se provar o contrário, mas nossa justiça funciona às avessas: todos (com exceção dos detentores do poder) são culpados até prova em contrário.
    Sou professora e sei que levamos "surras" todos os dias (bem...nem todos os dias).. e vejo a luta de meus colegas de profissão pelo país todo. Somos uma categoria que não é levada a sério, e mesmo sabendo "mais ou menos" a resposta, ainda me pergunto o por que.
    Em tempo: adorei o poema que inicia a postagem, ainda não conhecia.

    ResponderExcluir
  2. Eu estou num momento que nada nessa vida me choca mais, vou pegar a minha bolha e vou viver num realidade paralela e viver alienada pq ganho mais, depois, um dia eu volto.

    Mi

    ResponderExcluir
  3. Putz esse cara é mesmo um herói. Eu não sei nada sob pressão. Ainda mais a revolução francesa....
    A vida do negro e do mestiço ainda é muito complicada. Sem querer fazer graça, mas aquele velho ditado racista traduz a mentalidade dos envolvidos: "branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão" afinal o único crime desse prof foi correr na hora errada e ser negro/mulato(sei lá qual a classificação que ele prefere), pq se fosse branco ninguém ía duvidar que ele estava fazendo cooper.

    ResponderExcluir
  4. Vi isso ontem e mais uma vez a indignação tomou conta de mim. Os professores são surrados pelo governo com o desrespeito e, pelos alunos que levantam a voz e agridem verbal ou fisicamente e agora esse caso. TRISTE realidade! bjs,chica

    ResponderExcluir
  5. Eu admiro sinceramente quem escolhe a docência, meu irmão escolheu e o admiro ainda mais por isso. Da minha parte nunca foi algo que pensei em fazer, é um trabalho que de todas as formas imagináveis é sub-reconhecido. E, sim, vivemos em um pais que ainda caminha nos trilhos da aparência, das posses. Ser branco e rico é o ideal.

    Dois abraços.

    ResponderExcluir
  6. Mais um fato que empobrece todos nós. Ficamos menores, damos um passo para trás e nos entristece ainda mais.

    ResponderExcluir
  7. Oi de novo, Pandora!
    Indiquei seu blog para uma "tag". Se quiseres conferir, dê uma passadinha lá no Devaneios e fique à vontade para participar, ou não. Abraços
    Mari

    ResponderExcluir
  8. Fui estagiária de Psicologia escolar durante um ano. Todos nós que queremos e tentamos fazer uma educação de qualidade levamos uma surra todo dia... não tinha lido esta matéria ainda estou digerindo essa "..." não tenho palavras...

    ResponderExcluir
  9. Eu preciso compartilhar esse post por todos os cantos do mundo. Minha irmã é pedagoga e já me contou diversas histórias chocantes, por isso, eu entendo o lado dos professores. Qualquer pessoa que decide dedicar sua vida à educação dos outros sabendo de todas as pedras no caminho, e ainda passando por cima de outros obstáculos inimagináveis, é meu herói.

    ResponderExcluir

Esse blog não representa um exercício de escrita, ele é um exercício de memória, de lembranças e esquecimentos. Funciona como uma caixa onde guardo coisas, sinta-se livre para comentar, mas saiba: comentários sem relação com o post serão excluídos por respeito a quem comenta de verdade.