quinta-feira, 31 de julho de 2014

Centro Cultural Correios – Recife [Desafio 12 Lugares #6]

Se eu fosse uma blogueira mais disciplinada, hoje deveria ser o dia no qual se falaria sobre o lugar número 7 do "Desafio 12 Lugares", proposto pela Lu Tazinazzo do blog "Aceita um leite?"Mas como eu sou como eu sou¹ vou falar sobre o lugar número 6, a saber: "O Centro Cultural Correios - Recife", localizado na Av. Marquês de Olinda, 262, centro antigo da cidade, uma área tombada pelo IPHAN, considerada Zona Especial de Proteção Histórica desde 1997.


O centro funciona em um prédio é uma construção do início do século passado e foi adquirido pelo ainda "Departamento de Correios e Telégrafos – DCT" em 1921 e tornou-se sedo dos Correios em Pernambuco. Como muitas coisas no Brasil foi vitima de um bom período de deterioração de uma reforma superfatura [uma micharia de 5 milhões], mas em julho de 2009 foi devolvido a população com direito salas de exposição, auditório, restaurante (bistrô), agencia postal e uma históricas permanentemente aberta a visitação gratuita.



O lugar por mim visitado foi justamente a "Sala Histórica", nela estão guardados todos os tipos de objetos antigos relacionado a história das comunicações no Brasil, consistindo assim em um prato cheio para mim, uma historiadora de profissão.


Como estava com tempo e sem ninguém para me apressar, passei uma boa parte da minha tarde explorando com paciência e calma a sala inteira e seus objetos. Os historiadores cujo objeto de estudo é a cultura material, costumam dizer: "o homem faz o objeto e o objeto faz o homem".


Os objetos preservados nessa sala falam de uma época na qual as coisas eram feitas mais lentamente e a vida não corria como corre hoje. Não que não houvesse pressa, mas é que não havia a possibilidade de se comunicar com os extremos do mundo com a velocidade que temos hoje, era preciso ter paciência para esperar as cartas chegarem através de profissionais que não usariam avião ou carras velozes.







Os objetos também falam da ânsia constante do ser humano em diminuir suas esperas consolidado na figura do telefone e outros aparelhos.



O telefone, assim como o computador não reduz distancias, mas nos possibilitam a divina dadiva da comunicação, o que não é pouco definitivamente. Ah, bom notar também o quanto esses aparelhos são sólidos, falando de um tempo quase pré-industrial no Brasil no qual objetos como esses eram feitos de forma quase artesanal. 





Observando a solidez desses aparelhos, que parecem ter saído de obras steampunk², [obviamente é o contrario, eles inspiram os autores desse gênero] penso nessa época na qual não se produzia ferozmente produtos descartáveis. Eu entendo os autores de steampunk, é fabuloso pensar em tempo no qual os objetos eram feitos para atravessar gerações e havia tanta esperança na ciência e sua potencialidade para criar coisas capazes de melhorar nossa qualidade de vida.

A segunda metade do século XIX e o inicio do século XX foi uma época de muitas expectativas e esperanças. Basta olhar para a ficção cientifica da época. Os olhos sensíveis dos escritores desse gênero anteviam grandes descobertas e a possibilidade da melhora da qualidade de vida de uma parcela significativa das pessoas do mundo, o ideal positivista estava no auge, havia fé na potencialidade da humanidade evoluir para o mais e o melhor.

Nossa época não costuma produzir muitas coisas capazes de durar até a próxima geração, talvez seja mesmo verdade a máxima "o homem faz o objeto e o objeto faz o homem". Nós costumamos nos perguntar se haverá uma próxima geração, então para que produzir coisas solidas? Há guerras, pragas, fome e crianças morrendo gritando no momento no qual escrevo esse texto e possivelmente no momento no qual alguém o ler... Quem não olha para suas crianças e sente medo atire a primeira pedra! Talvez não haja nem humanos no planeta daqui a 100 anos, não há mesmo sentido em produzir coisas duradouras.

E como o pessimismo tomou conta de mim, eu vou me  jogar nele com fé. Sempre que visito o passado anterior a década de 1930 através dos vestígios por ele legado a nós eu vejo por toda parte tanta esperança, tanta fé em qualquer coisa chamada humanidade e então me recordo de duas guerras mundiais, uma bomba atômica, o rastro de doença, fome e peste deixados pelos europeus durante da descolonização da África e da Ásia e as catástrofes do presente me sinto em uma pavorosa distopia.
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¹ Essa expressão foi tirada de um post da Lu Tazinazzo

²A Sybilla responde muito bem a pergunta "O que é steampunk?"

Essa foi a minha participação no Desafio 12 Lugares do blog "Aceita um leite?"



9 comentários:

  1. nossa, muito bacana. beijos, pedrita

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  2. Olá Jaci/Pandora,
    cheguei e abri a caixa de seu blog. Fui lendo por aqui até onde esta página leva. Viajei pela História através das comunicações, passei pelos seus achados literários - me empolguei com o escritor que você ama e eu, ai de mim! não conhecia, mas adorei ler os excertos colocados que abriram minha curiosidade - e ainda deu para refletir - mas essa parte não sei se gosto - sobre a humanidade e nosso encaminhamento. Eu, quero acreditar que, no meio de toda esta miséria de gente, haja dúzia e meia de capazes e bons seres pensantes que nos consiga levar para um pouco mais além na História, mas já Saramago dizia:
    «Eu sou tão pessimista que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros.»
    http://caderno.josesaramago.org/162549.html

    Abç

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  3. Que lugar lindo e interessante? Obrigado por nos apresentar e fica a dica para uma próxima viagem.

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  4. Sabe que às vezes eu queria ser mais carneiro e menos pensante? Não sei, são tantas coisas acontecendo que eu acabo achando que talvez seja inevitável uma total descrença e um pessimismo latente. Um dos personagens da Agatha Christie, Miss Marple, era uma velhinha pessimista, que fora baseada em uma parenta da autora, acho que numa avó, que dizia que o bom de ser pessimista é que você tem muito mais chances de estar certo. Não é muito animador, concordo.

    Bom, vamos animar que é o que resta! Dois abraços ;) e obrigado por me fazer refletir.

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  5. Lindo os correios daí de Recife. O daqui é bonito mas nem tanto.E com exposiçoes! Aqui não tem nao. E gostei do que escreveu...num é... O povo não faz mais coisas para durarem tanto assim, uma pena.
    Beijos
    Adriana

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  6. Tenho considerações, vou da mais boba a mais pertinente.
    1º - Adoro esse tipo de post porque eu amo coisa velha. Coisa antiga, vintage, retrô, relíquia, fóssil, acervo, etc. Ainda bem que não tenho muito dinheiro nem espaço pra essas coisas, senão, no prazo de 7 anos eu estrelaria um episódio de "Acumuladores" na Discovery.

    2º - Adorei a arquitetura e a decoração do Centro Cultural. É maravilhoso quando o governo resolve "fazer a bondade" de nos devolver o que nos pertence e proporciona lugares multi-tarefa e ainda preservam nossa história. Achei tudo lindo mesmo, imagino como seu dia deve ter sido gostoso. Adoro ir ao museu sozinha, foi uma delícia quando desbravei o MAC aqui em SP.

    3º - Só eu enxergo um rosto bobo com cara de Astolfo naquele primeiro modelo de telefone?

    4º - Eu entendo e compartilho dos seus sentimentos quanto ao passado e o futuro. Acredito que precisamos criar coisas duráveis exatamente para que nosso registro não fique perdido dentre guerras, conflitos, doenças e apocalipses. Mas quem disse que o "sistema" se importa? Somos o começo das gerações frívolas que serão mais facilmente esquecidas, e eu realmente temo pela nossa história. Pela conservação e pela veracidade dela. Eu me sinto a beira de um cenário distópico, como se faltasse apenas um passo para entrar em colapso, gostaria de saber o que fazer com esse sentimento. Talvez seja por isso que eu goste de museus. Gosto de ver que merda aconteceu e algumas pessoas sobreviveram. Talvez eu sobreviva também.

    Enfim... beijos e bons passeios!!!

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  7. Oi, Jaci!
    Que bela construção! Imagino o tempo que levou para restaurar tudo! Na casa do meu avó tinham muitas dessas relíquias, pois ele fazia coleção. Certamente, se estivesse vivo, teria ido à essa sala histórica, como o fez no passado por vários outros centros históricos do Brasil.
    As coisas até poderiam ser fabricadas para durar a vida toda, mas esse não é o interesse da indústria e o prazo de validade é levado à sério... Senão o comércio não movimentaria e em consequência a indústria não fabricaria... Somos manipulados até nisso!
    Enquanto estivermos presos na matéria o mundo terá um fim. Somos muito mais que carne e a terra é apenas um lugar! Gosto de pensar que no passado, muitas dificuldades foram vencidas e eles também pensavam que o mundo não iria durar, mas passamos do ano 2000 contrariando toda a maldição que os antigos usavam para controle mental dos que deixavam o medo tomar conta de seus corações.
    Se um dia for à Recife vou te chamar para ser a minha guia! :D
    Beijus,

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  8. Jaci, você sabe que eu amo História, não é? Fico encantada com prédios históricos e ao ver todos os elementos que os compõem. Eu adoraria visitar esse Centro Cultural. Quando for a Recife, você precisa me levar nele. É lindo, cara. Eu exploraria igualmente de forma paciente todos os objetos e cada cantinho desse prédio histórico maravilhoso. Que coisa bela que é esse monte de coisa construído, como você mesma disse, de maneira quase artesanal. Muito amor por essas caixinhas de correio e pelos telefones. Eu tenho um amor imenso por coisas antigas. Adoro, adoro mesmo conhecer um pouco da história e de como era tudo nos tempos de outrora.
    Um abraço!

    Sacudindo Palavras

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  9. Oi, Jaci.
    Lindo! Adoro visitar lugares assim. O Rio também é cheio desses lugares preservados e lindos! :)
    Não compartilho desse seu pessimismo. A ciência têm se desenvolvido cada vez mais rápido e acredito que as crises serão vencidas.
    Beijos.

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Esse blog não representa um exercício de escrita, ele é um exercício de memória, de lembranças e esquecimentos. Funciona como uma caixa onde guardo coisas, sinta-se livre para comentar, mas saiba: comentários sem relação com o post serão excluídos por respeito a quem comenta de verdade.