quinta-feira, 17 de abril de 2014

Como assim "Dicas de Literatura Infantil Para Crianças Negras"?

Nem sempre pensei como penso hoje... Nem sempre tive essa clareza politica-filosofica, mas hoje sinto um arrepio na espinha quando leio algo como "Dicas de Literatura Infantil para Crianças Negras".

Opaaaa... Agora existem livros específicos ideais para crianças negras, livros ideais para crianças brancas e livros para crianças japonesas... e por ai vai?!?! Isso não me soa bem... não me soa bem mesmooo. E olha que desse assunto eu, modéstia a parte, posso falar!

Tenho anos de pesquisa em "História e Cultura Afro-brasileira" e "Literatura Afro-brasileira" e por ai vai... Tenho anos de bagagem como educadora infantil em uma creche na periferia de Recife... Sou membro de uma família pra lá de mestiça... Meu pai é negro, também sou negra, com pouca tinta é verdade, mas sou! Tenho em minha estante uma coleção de livros infantis e dentro dessa coleção outra coleção de livros nos quais os personagens são negros e negras, histórias sobre a África ou se passam na África. Falo sabendo do que falo.


É preciso FRISAR, DESTACAR, ENDOSSAR:

Todos os livros são ideais para crianças negras, mesmo aqueles nos quais não há crianças negras!

 Todos os livros são ideais para crianças brancas mesmo os que não tem crianças brancas!

Eu compreendo a sede de material no qual crianças negras, homens negros, mulheres negras apareçam e sejam protagonistas das histórias que todos temos. Não ignoro a realidade dura e cruel do racismo. Não ignoro a necessidade FUNDAMENTAL de mais livros livros com príncipes, mocinhos, deuses, gênios, princesas, vilãs, elfas, ninfas negros e negras. Sei disso, estudo isso, trabalho e trabalharei com fé em Deus contra o eurocentrismo, o racismo todos os dias da minha vida.

Mas eu chego a tremer [isso não é metáfora estou tremendo de raiva] e ter coisas quando vejo pessoas querendo limitar o universo cultural das minhas crianças... Nem sempre eu entendi isso, mas é preciso compreender: para construir um mundo humanamente equilibrado não podemos criar guetos e sim desfazer guetos já construídos.

A dica para de Literatura Infantil Para Crianças Negras é

TODA LITERATURA JÁ ESCRITA NESSE MUNDO.
__________

P.S.: Esse post revoltadinho, tipo desabafo, não era para ser escrito, estamos em dias de coisas boas como o 8º Bookcrossing Blogueiro, mas ou eu escrevia isso ou morria!

15 comentários:

  1. Oi Jaci! Também achei a nomenclatura muito preconceituosa. Poderiam ter mudado para: livros que falam a respeito da cultura negra, ou do preconceito sei lá. Mas confesso q lembrei de uma coisa engraçada enquanto lia. Lembra do seriado da Blossom? Teve um episódio que ela fazia aniversario, mas não queria que ninguém festejasse, mas ao mesmo tempo ela ficava deprimida. Pra passar pela data, alugou um monte de livros na biblioteca e um deles falava sobre o preconceito contra uma menina negra. Foi engraçado a forma como ela apresentou o livro para o público, mas eu penso que apesar dela ser branca, se identificava com o preconceito que a protagonista passava, por ser meio esquisitona. Em outras palavras um licvro é feito para um público, mas acaba atingindo muitos tipos de pessoas diferentes.

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  2. Eu ainda não consigo acreditar que possa existir "Dicas de Literatura Infantil para Crianças Negras", parece que a gente anda, anda, anda e o mundo não sai do lugar! Sempre os mesmos preconceitos, sempre a mesma coisa, é de tremer de raiva mesmo Jaci

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  3. Ui Pandora, que ótima reflexão. Quando eu li o título não entendi bem, achei que vc estava fazendo exatamente o motivo de sua reclamação: separando a literatura por raças.
    Mas é certo o que vc disse, "Literatura Infantil Para Crianças Negras é TODA LITERATURA JÁ ESCRITA NESSE MUNDO."
    Parabéns.

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  4. Pandora, eu já incorri neste erro e só o percebi depois de uma postagem que fiz divulgando um projeto de crowdfunding para publicação de um livro infantil sobre uma versão de Branca de Neve sendo negra. Fiz na melhor das intenções e foi através dos comentários que refleti esta questão.
    Enquanto estamos segmentando, estamos sim limitando.
    Acrescentou ainda mais seu desabafo.
    Beijo!

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  5. Mas, caramba, de onde surgiu essa idiotice de "Dicas de Literatura Infantil para Crianças Negras". Como assim,t em de ser diferente das que os rancos leem? Eu acho de uma pequenez sem tamanho e uma estreiteza de visão ímpar quem apoia, endossa ou se faz guiar por coisas desse tipo. E nem preciso dizer mais, nada, você o fez com propriedade - e, como dizem, "chamou pra si e deu conta do recado" - arrematando de uma forma que não deixa espaço para réplicas - pelo menos não as mentalmente sãs - "A dica para de Literatura Infantil Para Crianças Negras é TODA LITERATURA JÁ ESCRITA NESSE MUNDO".

    Dois abraços.

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  6. Achei sua revolta muito válida Jaci, esse tipo de coisa me deixa furiosa também, acho que qualquer tipo de segregação baseada em cor de pele ou nacionalidade é desprezível.

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  7. Tem razão, Pandora. Isso de literatura para crianças negras nada mais é que um novo gueto, além dos que já existem. Criança é criança, ser humano é ser humano, basta de discriminações "politicamente corretas" que só servem para criar mais segregação. E obrigado pela visita ao Vô Tônico. Abraços.

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  8. Oi Pandora! Você está certa, eu também vejo com estranheza esse tipo de retrocesso. Parabéns pela participação no Projeto. Livros e bonecas de pano fazem sucesso por aqui! Beijo!

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  9. Bom dia Pandora,
    Grata pela visita!
    Vc fez muito bem em escrever esse texto indignado e inteligente.
    É o cúmulo do absurdo, classificar livros para crianças negras, ou brancas.
    Embora a criança negra, não se reconheça na literatura infantil,
    é sempre bom lembrar que leitores não são escolhidos pela cor.
    Gostei do post.
    Bjs.

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  10. Eu acho lindo quem curte manter suas tradições ou reconhecer sua raça. Ninguém é igual a ninguém, judeus têm o direito de agir como judeus e fazer coisas de judeus e ler coisas de judeus, o mesmo para cristãos, hindús, negros, brancos, asiáticos, enfim. Mas é preciso compreender que não é porque ninguém é igual a ninguém que alguém seja melhor que outrem.

    Eu acho lindo coisas como o Museu Afro-Brasil em SP, mas me dá coisas quando escuto "o museu que os negros precisam visitar". E os brancos? Não precisam ir lá e ver o que o racismo impôs à milhares de pessoas? E os asiáticos? Não podem consumir cultura? Seu post é mais que relevante!

    Uma vez ouvi uma ofensa de um carioca por ser paulista. Eu NUNCA esperei sofrer "racismo" (porque, né? nem se compara ao sofrimento de outras pessoas) por ser paulista numa cidade que maltrata nordestinos todos os dias. Na minha cidade. Não foi quase nada, mas me deu uma certa dimensão sobre o que é ser rotulado por uma coisa que foge ao seu controle e que não te define. Acho que as pessoas não conseguem compreender a realidade de outras pessoas, acham que o mundo funciona igualmente para todo mundo, e simplesmente não querem lidar com isso.

    OBS.: "Com pouca tinta" foi diva! =*

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  11. Oi, Pandora,

    É de lascar uma babaquice dessa, esse é o tipo de coisa que me faz perder a compostura. Eu acho, porém, que apesar das imbecilidades desse tipo
    a gente está entrando numa era de mais igualdade, pois além das leis que agora
    existem contra o racismo, os negros estão cada vez mais conquistando os postos antes proibidos a eles. Isso os permitirá reafirmar o fato simples de que eles não são inferiores a ninguém, muito pelo contrário, rsrs.

    Beijoca!

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  12. Concordo, Jaci. Acho importante dar espaço a livros sobre a cultura afro-brasileira e com personagens negros, assim como dar espaço a autores negros, mas jamais limitar, rotular, dividir... Toda cultura é enriquecedora para todos que se interessam por ela.

    Beijos.

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  13. Concordo, tremi ao ler o titulo também, e senti alivio ao ver que isso era uma revolta! A gente acha que a nossa sociedade já avançou tanto, e de repente, alguém solta uma frase ignorante que nos faz retroceder milhões de anos. Não existe, ou não deveria existir, essa separação, nem de livro e nem de nada, para pessoas brancas ou negras: somos todas pessoas, e só.

    http://www.novaperspectiva.com/

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  14. Jaci, matou a pau, como sempre! Quase caí da cadeira quando li esse título, porque, por um mísero momento, quase pensei que era um post sobre livros para crianças negras, mas depois, antes mesmo de ler o post, saquei que era ironia e que viria chumbo grosso em seguida.
    E é a pura verdade. O que tem de ser feito não é separar a literatura por etnias (temos que esquecer isso de "livros para brancos", "livros para negros", "livros para indígenas", e integrar todas as etnias em toda a literatura. Precisamos ter, sim, heróis das mais variadas cores e formas. Heróis negros, azuis e roxos. Heróis deficientes, por que não? É impressionante como só parei pra pensar nisso agora. Talvez já tenha pensado nisso antes, mas não com a mesma intensidade e profundidade de agora. Eu, deficiente física, não conheço nenhum super-herói deficiente, um galã deficiente, uma mocinha deficiente desejada pelo vilão e pelo mocinho. Por que isso? Pura discriminação e desconhecimento. Todos nós, independentemente das nossas características físicas, podemos ser sensacionais. Só depende de que nós nos imponhamos e, obviamente, tenhamos nossos direitos e deveres assegurados.

    Um grande abraço, queridona!
    Você é ótima!

    Sacudindo Palavras

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  15. Nossa, Pandora! Onde você viu isso?
    Você bem disse, não existe literatura específica para uma determinada cor de pele, tanto para crianças quanto para adultos. Por outro lado, caso o professor sinta que dentro da sala de aula exista preconceito, poderá introduzir um debate sobre questões raciais através de livros que ressaltem a contribuição do povo negro na formação social, econômica e política da História do Brasil.
    As crianças absorvem tudo o que acontece ao seu redor e se ela tem pensamentos racistas, certamente tem um adulto racista por perto ou mesmo um amiguinho que traga para ele informações erradas. Veja a premeditação que existe na autopromoção de "famosos" usando do artifício da cor para que os holofotes valorizem um evento. As crianças estão também comentando sobre a banana jogada em campo - uma peça de marketing. Se estava combinado de Neymar comer a banana, sinal que sabiam que ela seria jogada... me engana que eu gosto! Agora dizem que a banana foi jogada para a pessoa errada.
    Muitos outros se aproveitam do preconceito para aparecer na mídia, é o caso do Felipe Neto - que também é visto por muitas crianças que o acham engraçado, enfim... Se os pais e educadores não filtrarem as informações que chegam para as crianças, elas estarão à mercê do preconceito racial e do discurso relativizador.

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Esse blog não representa um exercício de escrita, ele é um exercício de memória, de lembranças e esquecimentos. Funciona como uma caixa onde guardo coisas, sinta-se livre para comentar, mas saiba: comentários sem relação com o post serão excluídos por respeito a quem comenta de verdade.