sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Luiz Gonzaga, um grande de seu tempo.


O ano do Centenário de Luiz Gonzaga está gerando uma sequência de merecidíssimas homenagens, ao menos aqui no Recife. O sacal nessas situações são os chavões. Os dois que, como historiador, mais me irritam são "homem à frente de seu tempo" e "obra atemporal". Essas expressões tão repetidas partem da premissa absurda de que é possível escolher se você quer fazer parte do seu tempo ou não. Ou ao menos que os gênios têm esse poder.

Uma coisa é ouvir a inigualável música de Bach e se comover com sua beleza eterna. Outra coisa é você ignorar todos os sinais óbvios de que é uma obra indissociavelmente ligada à primeira metade do século XVIII, em especial das áreas protestantes da Alemanha.

O mesmo vale para Machado de Assis. Ler seus romances é excelente, mas tanto pelas convenções do romance realista como pela tematização obsessiva da crise da sociedade senhorial, são muito claramente obras do fim do século XIX brasileiro.

Essas obras não são "atemporais" e não estavam "à frente de seu tempo". Eram tão brilhantes e geniais que, a despeito de todo os seus aspectos datados, continuam tendo muita coisa a dizer para pessoas que vivem em contextos espaciais e temporais muitíssimos diferentes, o que é totalmente diferente.

Luiz Gonzaga era totalmente filho de seu tempo. Foi para o Rio como tantos jovens da época, tentando ser cantor romântico. Não conseguiu, mas percebeu que poderia tentar se destacar no nicho regionalista. A aposta foi certeira. Era o tempo em que a cultura de massas se segmentava, abrindo espaço para manifestações mais particularistas. E também era o tempo em que se cristalizava uma identidade "nordestina", separada de uma identidade "nortista" mais geral.

Ele foi filho desse contexto. Consolidou de forma irresistível o padrão sonoro e visual do que seria a identidade nordestina. Apresentou esse conceito de "nordeste" a milhões de pessoas que não o conheciam, de uma maneira genérica o bastante para ser aceito sem muitas ressalvas por nordestinos e forasteiros. Associou eternamente seu nome a essa identidade. Tudo isso enquanto cantava músicas absolutamente sensacionais.

Luiz Gonzaga não é atemporal nem estava à frente de seu tempo. Foi totalmente um filho de seu tempo. Um dos mais brilhantes. Ajudou a moldar sua época e deixou uma herança que, tantos anos depois, ainda orgulha profundamente a sua gente. Não tá bom?

12 comentários:

  1. "Luiz Gonzaga não é atemporal nem estava à frente de seu tempo. Foi totalmente um filho de seu tempo. Um dos mais brilhantes. Ajudou a moldar sua época e deixou uma herança que, tantos anos depois, ainda orgulha profundamente a sua gente. Não tá bom?".

    Tá ótimo, Tiago!
    Belo post, Pandora! Enriqueceu esse especial. =D

    Sacudindo Palavras

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  2. Depois de ler duas vezes concordo com o Tiago, mas ainda não me convenci muito do querer ou não ser atemporal, mas também não consigo dizer porque não concordo tanto. Talvez seria melhor usar memorável ao invés de atemporal. "A obra de fulano é memorável" Acho mais justo. É, concordo com o Tiago.

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    1. Luciano, o Tiago é historiador, e os historiadores acreditam firmemente que ninguém está a frente de seu tempo, todos somos produtos de nosso tempo e tudo o que produzimos é produto das experiencias que vivemos em nosso tempo e não fora dele, nada é atemporal ou a frente de nada.

      Eu concordo com ele.

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  3. Pode ser, pode não ser. Não dá pra generalizar. Mas o texto é ótimo!
    Beijo, Pan.
    (fiquei pensando: fala-se muito que Leila Diniz estava à frente do seu tempo. Ela quebrou regras, transgrediu muita coisa. "à frente do seu tempo" significa que ela fêz o que não era comum na época. Como cantor, compositor, artista que enfrentou tempos difíceis - era a época - tb não vejo como o bom Gonzagão pode ter estado à frente do seu tempo. Tá certo, concordo, Tiago).

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  4. Preciso conhecer o senhor Tiago. Fato!

    BeijoZzz, minha melosa número 1.

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  5. O mestre lua, filho de Januário foi sim à frente de seu tempo. A questão é se situar em um lugar. Eu que não sou "sertaneja" não me situo dentro da realidade sertaneja vigente na época, mas é admirável alguém que nasceu no sertão, conseguir compor Asa Branca (1947) e essa ser uma das músicas mais regravadas da atualidade. Somente esse fato comprova que ele esteve e está a pelo menos 50 anos à frente de seu tempo.
    Bom fim de semana! Beijus,

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  6. Tiago falando tudo maravilhosamente, como sempre.

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  7. Bem legal esse texto! Eu gosto muito do Luiz Gonzaga ele tem a cara do que é mais brasileiro. Estava com saudade dos blogs amigos e resolvi dar uma passada aqui pra te deixar um beijo!

    Beijocas

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  8. Muito bom ler sobre Gonzagao e sempre reconhecer a sua importância para a música brasileira.

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